Traição nos Bastidores
O ar na oficina clandestina tinha gosto de ferrugem e ozônio. Kael observava o monitor do Sucata-01, onde o contador de dívida da Academia saltava freneticamente. O reajuste punitivo de Vane não era apenas burocrático; era uma sentença de morte financeira. O custo de manutenção do núcleo Égide havia dobrado, drenando os últimos créditos de Kael em segundos.
— O boicote está nos sufocando, Kael — Sora disse, a voz abafada pelo metal do chassi. Ela estava soldando uma conexão crítica, o brilho azulado da tocha destacando as olheiras profundas em seu rosto. — Se não conseguirmos peças de reposição, o núcleo vai fritar em doze horas. A Academia cortou o fornecimento de todos os distribuidores do setor.
Kael não desviou o olhar da tela. Ele acessava os servidores da Academia via conexão direta do Égide, navegando por camadas de segurança que teriam derrubado qualquer outro piloto. Ali, escondido sob a rubrica de "Manutenção de Rotina", estava o mapa de desvios de Vane. O comandante não estava apenas protegendo o ranking; ele estava financiando sua própria ascensão política com o sucateamento forçado de pilotos do setor inferior.
— Eu tenho a prova, Sora — Kael murmurou, tocando o chip de dados em seu bolso. — Vane está manipulando as falhas nos Desafios de Elite. Ele não quer apenas me vencer; ele quer que o Sucata-01 exploda durante a prova para apagar os rastros do protótipo.
O silêncio foi interrompido pelo guincho metálico da porta principal sendo arrancada. Três silhuetas surgiram na penumbra, vestindo o uniforme tático da segurança da Academia. Não eram cobradores. Eram executores.
Kael saltou do cockpit antes mesmo que o primeiro tiro de atordoamento atingisse o painel. Ele não era um soldado de elite, mas conhecia cada centímetro daquele labirinto de lixo tecnológico. Ele agarrou uma chave de torque pesada, sentindo o peso do metal — sua única defesa contra a autoridade que tentava apagá-lo.
— Sora, proteja o servidor! — ele gritou, mergulhando atrás de uma carcaça de motor.
O combate foi rápido e brutal. Kael usou o ambiente: um jato de vapor pressurizado para cegar o primeiro atacante, seguido por um golpe preciso no joelho do segundo. Quando o líder avançou com um bastão de choque, Kael sobrecarregou o núcleo do Sucata-01, forçando uma descarga de energia que iluminou o galpão como um relâmpago. O pulso eletromagnético fritou os visores dos invasores, deixando-os vulneráveis. Kael desarmou o líder e arrancou o drive de autenticação de seu cinto.
Com os invasores em fuga, Sora conectou o drive ao sistema. A tela holográfica revelou o plano final: o próximo Desafio de Elite seria realizado em uma arena com falhas estruturais programadas.
— Ele quer que você morra diante de toda a cidade — Sora disse, a voz trêmula. — É uma execução disfarçada de prova.
O comunicador do cockpit apitou. A imagem de Vane surgiu, fria e impecável.
— Kael, você é uma anomalia dispendiosa — disse Vane. — Retire-se do próximo ciclo e perdoarei seus débitos. Caso contrário, o próximo desafio será o seu fim.
Kael enviou um fragmento dos dados incriminatórios para o visor de Vane. O comandante congelou, o rosto perdendo a cor por um instante antes de recuperar a máscara de ferro.
— O desafio continua, Vane — Kael respondeu, a voz firme. — Mas agora, o mundo inteiro vai assistir ao seu julgamento.