O Custo da Vitória Provisória
O contador da dívida estancou em doze segundos. O visor do Ferrugem piscava em um âmbar doentio, o brilho denunciando a sobrecarga harmônica que acabara de rasgar o ar da arena. Kael sentiu cada engrenagem do frame protestar através da interface neural; o metal, cansado e remendado, vibrava como uma corda de violão prestes a arrebentar. À sua frente, o drone de combate tático de última geração — um orgulho da engenharia da Academia — jazia em pedaços fumegantes, superado por uma sequência de movimentos que, segundo os manuais, deveriam ter inutilizado qualquer carcaça obsoleta. O Ferrugem continuava de pé, embora uma trilha de fluido hidráulico negro manchasse o solo polido como uma ferida aberta.
— Auditoria de sistema concluída. Identificação: Kael. Status: Sobrevivente — a voz sintética da arena ecoou, gélida. Nas arquibancadas, o silêncio era denso. O Diretor Silas, no camarote de honra, observava com os lábios comprimidos em uma linha fina, os dedos tamborilando na borda da mesa. Ele não aplaudia; ele calculava. O Ferrugem soltou um guincho metálico, uma nuvem de fumaça tóxica escapando pelas aberturas de exaustão, e Kael forçou o frame a se retirar antes que a trava de segurança fosse reativada.
Horas depois, o cheiro de ozônio e óleo queimado ainda impregnava o traje de Kael enquanto ele empurrava o Ferrugem para dentro da oficina de Joca, no Setor Baixo. Cada movimento era um protesto; as articulações dos joelhos rangiam como vidro moído.
— Você está louco, garoto? — Joca, com os dedos fundidos em graxa industrial, limpou o suor da testa. — Se a Academia descobrir que você forçou o núcleo com aquela técnica proibida, não vão apenas apreender o frame. Vão transformar você em pó.
Kael ignorou o sermão, depositando um cartão de créditos sobre a bancada — o prêmio da vitória que a Academia tentara negar até o último segundo. — Preciso de um estabilizador de alta tensão e uma nova vedação para o pistão esquerdo. O Ferrugem não vai aguentar a próxima rodada.
Joca olhou para o cartão, depois para a porta da oficina. Ele baixou o tom: — Não posso. Silas baixou uma diretriz esta manhã. Qualquer peça de alta performance para frames de classe C ou inferior foi embargada. Estão nos vigiando, Kael. Se eu te vender isso, fecham minha oficina antes do amanhecer.
Kael saiu da oficina com um estabilizador de segunda mão, uma peça remendada que mal seguraria a carga, mas era o único caminho. Enquanto voltava pelos corredores de acesso da Academia, o zumbido metálico do Ferrugem ainda vibrava em seus dentes. O medidor de dívida em seu pulso brilhava em um vermelho estático: uma margem de manobra que não existia.
— Você tem uma coragem burra, Kael. Ou talvez apenas um desejo de morte bem articulado. — A voz era fria, polida como o metal de um frame de elite. Elena Vane estava encostada em uma coluna, observando o tablet de dados. O nome de Kael, antes invisível, subia alguns degraus no ranking.
— A sobrevivência não é uma questão de coragem, Elena — Kael respondeu, mantendo o passo firme. — É uma questão de não ter para onde correr.
Elena deu um passo à frente, bloqueando o caminho. O perfume caro dela contrastava com o cheiro de graxa queimada que Kael carregava. — Você usou a sobrecarga harmônica. Uma técnica banida para manter a ordem. Silas não vai deixar isso passar. Ele já mudou a próxima prova, Kael. Você não vai enfrentar drones. Vai enfrentar o esquecimento.
Ela se retirou com um sorriso cínico, deixando Kael com a dúvida. Ele correu para o terminal de dados em seu dormitório, seus dedos calejados hesitando sobre o teclado tátil. Quando a interface carregou, o ar no quarto pareceu rarefeito. O protocolo padrão havia sido substituído por um cenário de 'Risco de Segurança Classe Delta'.
Kael não precisava de um especialista para traduzir o código. O cenário Delta não era um teste; era um dispositivo de eliminação. A arena seria inundada com pulsos de sobrecarga iônica, projetados especificamente para fritar os circuitos de modelos obsoletos como o seu Ferrugem. Silas não queria apenas uma derrota; ele queria uma falha catastrófica em rede nacional. Kael encarou a tela, o reflexo de seu rosto cansado sobreposto à sentença de morte digital. Ele não ia desistir. Se a Academia queria um espetáculo de destruição, ele daria a eles a prova de que o Ferrugem era mais letal do que qualquer máquina brilhante que Silas pudesse comprar.