Novel

Chapter 1: O Loop do Erro Fatal

Lucas descobre uma transmissão ao vivo impossível envolvendo sua tia Helena e um cronômetro de 72 horas. Ao tentar hackear o sinal, ele acessa um registro de mortes familiares que prova que o evento não é um erro, mas uma sentença. Ele confronta Helena, que confirma o perigo, enquanto O Executor aparece do lado de fora da casa.

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O Loop do Erro Fatal

A chuva em São Paulo não caía; ela golpeava o vidro do café em Pinheiros como se tentasse apagar o mundo lá fora. Lucas, arquiteto de dados acostumado a encontrar ordem no caos, limpou o café da tela de seu tablet. Ele esperava um relatório de logística, mas o sistema apresentou uma notificação de transmissão ao vivo de uma conta sem nome. O ícone era um relógio de bolso com o vidro trincado — o mesmo que repousava, em algum lugar, dentro de uma gaveta selada na casa de sua tia Helena.

Lucas tocou na tela. O vídeo carregou com uma estática metálica que parecia raspar a audição. A imagem se estabilizou. Era Helena, trinta anos mais jovem, sentada na poltrona de veludo verde da antiga sala de jantar da família. Ela segurava o cronômetro de metal, o presente de sua infância. Mas o que fez a mão de Lucas travar foi o rodapé da transmissão: uma data exibida em vermelho digital, piscando com uma precisão que desafiava a física. Era hoje. 15 de novembro de 2024.

— Tia? — Lucas sussurrou, a voz perdida no ruído ambiente do café.

No vídeo, Helena não olhava para a câmera. Seus olhos estavam dilatados em um terror que ele nunca vira na matriarca. Ela começou a falar, mas não havia som, apenas a estática que aumentava de volume, transformando-se em uma frequência baixa que fazia o café na xícara de Lucas vibrar em círculos concêntricos. Ele abriu o prompt de comando, seus dedos voando sobre o teclado virtual. Ele precisava provar que era uma montagem, um deepfake de mau gosto feito por alguém que conhecia o histórico da família.

O sistema recusou o comando. Em vez do rastreio, uma janela de erro surgiu, exigindo uma chave de acesso que Lucas não digitava desde os dez anos: o código alfanumérico que Helena chamava de "a senha da nossa sobrevivência". O pragmatismo de Lucas vacilou. Ele digitou a sequência. A tela não mostrou o rastreamento, mas um painel de controle que ele não deveria acessar. Era um registro de pagamentos e datas de transmissões anteriores, todas marcadas com nomes de familiares que ele acreditava terem morrido de causas naturais.

O tablet aqueceu, emitindo um cheiro de ozônio. No canto superior da tela, o cronômetro digital, antes estático, começou a contagem regressiva de 72:00:00. O som da estática cessou, dando lugar ao sussurro inconfundível de Helena, gravado décadas atrás, mas soando como se ela estivesse logo atrás de sua orelha:

— Lucas, não olhe para trás. Eles já sabem que você viu.

O vídeo cortou para o preto. O cronômetro permaneceu, o tempo correndo contra sua própria existência. Lucas sentiu o suor frio escorrer pelas têmporas. Ele tentou forçar um encerramento, mas o sistema reagiu com um contra-ataque silencioso, bloqueando todos os seus privilégios de administrador. O ledger não era uma planilha financeira; era um registro cronológico de cicatrizes. Cada data listada — o incêndio da fábrica, o acidente de avião do seu pai, o desaparecimento do primo — estava marcada com precisão cirúrgica.

Sua carreira, construída em anos de ceticismo acadêmico, virou pó no instante em que ele percebeu que não estava olhando para dados, mas para uma sentença. A tela piscou, uma interface minimalista engoliu os logs e, no canto superior, o cronômetro digital cravou: 72:00:00. O tempo começou a correr.

Lucas correu para a casa de Helena. A chuva de São Paulo caía como uma cortina de chumbo, transformando as luzes da cidade em borrões distorcidos. Chegou ofegante; a porta estava entreaberta. Ele entrou, encontrando-a na penumbra da sala de estar. Ela estava sentada na poltrona, imóvel, os olhos fixos em um celular antigo que emitia uma luz azulada e doentia. O dispositivo não estava conectado a nada, mas a tela exibia uma transmissão ao vivo que não deveria existir: o feed de uma câmera de segurança de dez anos atrás, mostrando a mesma sala, o mesmo silêncio, e Helena, dez anos mais jovem, segurando o mesmo relógio de pulso que Lucas ganhara na infância.

— Helena, o que é isso? — Lucas tentou manter a voz firme. — O sistema caiu. Apagaram tudo.

Ela não se virou. O cronômetro no canto da tela marcava 72:00:00. O tempo estava correndo, real e implacável.

— Você não deveria ter olhado, Lucas — ela murmurou, a voz sem vida, como se viesse debaixo d'água.

De repente, o vídeo cortou. O silêncio na sala tornou-se ensurdecedor, mas então, um som começou a emanar dos alto-falantes do celular. Não era estática. Era a voz de Helena, sussurrando o nome de Lucas, repetidamente, com uma cadência que parecia atravessar as paredes, ecoando no espaço como se a própria transmissão tivesse se infiltrado na realidade física da casa.

Helena desligou o celular. O silêncio voltou, pesado e opressor. Ela levantou o olhar, encontrando o de Lucas com uma mistura de medo e resignação. Ela não explicou nada. Em vez disso, ela se levantou e caminhou até a janela, afastando a cortina apenas um milímetro. Lucas viu seus dedos apertarem o tecido com força branca.

Ele se aproximou e olhou por cima do ombro dela. Na calçada, sob a chuva incessante que parecia isolar a casa do resto do mundo, O Executor estava parado. Ele não se movia, não se protegia da água, apenas observava a casa com uma precisão cirúrgica, como se estivesse contando os segundos que restavam.

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