A Mentira Permanente
O silêncio na mansão não era paz; era a ausência de um batimento cardíaco coletivo. Lucas encarava a tela do laptop, onde o cursor piscava como um neon moribundo. Ele acabara de realizar o impensável: ao sacrificar sua identidade digital, ele não apenas quebrara o acesso à rede, ele se tornara um erro de sistema, um fantasma em uma São Paulo que agora, sob o peso da censura estatal, começava a ser varrida por um blecaute tecnológico. O contador, antes fixado em 45 segundos, permanecia estático em 00:07. Uma promessa suspensa.
— Você cortou o sinal, Lucas, mas não a fonte — a voz de Beatriz soou como vidro quebrado atrás dele. Ela estava na sombra do corredor, o rosto esculpido pela luz azulada do monitor. — Eles não estão vindo para a mansão. Estão vindo para o que sobrou de você. Se a Corrente te encontrar agora, você não é nem um prisioneiro. Você é apenas um arquivo corrompido a ser deletado.
Lucas não respondeu. Seus dedos, dormentes, percorriam linhas de código que ele reconhecia como a caligrafia digital de seu pai. O homem não estava apenas morto ou vivo; ele estava fundido à infraestrutura. O sistema da relíquia era descentralizado, uma hidra que se alimentava de qualquer hardware conectado. Enquanto ele tentava entender o alcance daquela conexão, o ar na mansão tornou-se gélido. Lá fora, sirenes cortavam o ruído constante da chuva, mas não eram policiais. Eram os agentes privados da Corrente, limpando o terreno antes que a verdade vazasse.
Eles fugiram para o subsolo, descendo até as entranhas de uma estação de metrô desativada na Zona Sul. O cheiro de ozônio e ferrugem era sufocante. Beatriz entrou em colapso contra a parede úmida, o tablet em suas mãos emitindo um zumbido de alta frequência que fazia os dentes de Lucas vibrarem.
— Ele está me chamando pelo barramento de dados — ela sussurrou, os olhos fixos em um vazio que apenas ela via. — Seu pai não está tentando parar a transmissão. Ele está ajustando a sintonia.
O pânico de Lucas se transformou em uma urgência fria quando a internet da cidade, que parecia morta, voltou a pulsar com uma distorção agressiva. O governo não estava censurando a rede para proteger o povo; estavam isolando o sinal para que a relíquia atingisse apenas os escolhidos. O contador, que permanecia em 00:07, saltou subitamente para 12 horas. O tempo não havia acabado; ele tinha sido estendido para uma execução em massa.
Beatriz perdeu a consciência, o dispositivo em suas mãos queimando sua pele, a conexão com a relíquia drenando sua sanidade enquanto o sistema se reiniciava. Lucas estava sozinho no escuro, sem nome, sem rastro legal e sem aliados. Ele olhou para o contador, agora marcando 11:59:59. A contagem regressiva para o fim da realidade não tinha parado; ela apenas mudou de frequência.