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Chapter 9: O Ritmo do Trabalho

Lucas renuncia ao cargo na imobiliária e se une a Helena na restauração da casa de chá, trazendo provas da fraude imobiliária. Juntos, eles iniciam o mutirão de limpeza para provar a vitalidade do local contra o leilão, culminando na descoberta de um compartimento secreto atrás do relógio da casa.

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O Ritmo do Trabalho

O pátio da Casa de Chá não era mais apenas um cenário de ruínas; era um organismo que Helena aprendia a ler pelo tato. O ar, pesado com a umidade da serra e o aroma terroso da fermentação, parecia vibrar com a urgência dos vinte dias que restavam para o leilão. Ela limpava a bancada de carvalho, seus dedos traçando as cicatrizes na madeira, quando o portão de ferro rangeu.

Lucas entrou. Não era o homem que, semanas atrás, media o valor do pátio em metros quadrados e lucro projetado. Seus ombros estavam curvados sob o peso de uma pasta de couro gasta, e a postura de predador fora substituída por uma hesitação quase crua. Ele parou sob a luz amarela do lampião, a poeira da obra dançando entre eles como um lembrete do tempo que se esgotava.

— Eu saí — disse ele, a voz rouca, sem preâmbulos. — Entreguei minha demissão esta tarde. Não quero meu nome vinculado às manobras que eles estão usando contra este lugar.

Helena parou o movimento da espátula. O silêncio que se seguiu não era de paz, mas de uma tensão física, palpável. Ela o estudou, buscando a ironia ou o truque, mas encontrou apenas um homem que parecia ter perdido o chão sob os pés. Ela estendeu a mão para a pasta que ele oferecia. Dentro, não havia apenas papéis: havia extratos bancários, e-mails internos e a prova cabal da fraude que drenara o fundo de reserva da casa. Com aquele gesto, a aliança estava selada. Ele não era mais o inimigo; era um cúmplice na resistência.

Para manter a casa funcionando enquanto lidavam com a papelada jurídica, Helena colocou Lucas para trabalhar na restauração da estufa de chá. O cheiro de serragem úmida e metal oxidado pairava ali, um contraste áspero com o aroma de fermentação da cozinha principal. Lucas, com as mangas da camisa social dobradas até o cotovelo e o rosto manchado de fuligem, segurava uma trena metálica contra a viga principal da estrutura. Seus dedos, acostumados ao toque suave de telas de tablets, tremiam levemente sob a pressão da tarefa.

— Se não nivelarmos isso agora, o telhado cederá sob a próxima chuva forte — disse Helena, sem desviar o olhar do nível de bolha. Ela não precisava olhar para ele para sentir a frustração que emanava de seus movimentos desajeitados. Lucas soltou um suspiro, largando a trena.

— Eu passei anos convencendo pessoas de que o valor de um lugar estava em sua localização e potencial de lucro — ele confessou. — Aqui, o valor parece estar na resistência do que sobrevive.

Quando ele finalmente conseguiu ajustar a viga, o som do encaixe perfeito ecoou pelo pátio como uma pequena vitória. Era um sucesso técnico que validava sua presença no refúgio, transformando o esforço físico em um rito de cura. O pacto, porém, foi testado logo em seguida, quando Dona Alzira surgiu com notícias sobre a prefeitura. A vizinha depositou uma pasta plástica sobre a bancada com a força de um veredito.

— Estão acelerando o processo de tombamento para o lado deles. Se não provarmos que este lugar é o coração pulsante da vila, o leilão será apenas uma formalidade — a voz de Alzira era um corte seco. Helena sentiu o peso do prazo. Vinte dias. Lucas, limpando as mãos sujas de graxa, aproximou-se com uma gravidade nova.

— Eles contam com o silêncio da vizinhança — disse ele. — Precisam ser desmentidos publicamente. Organizaremos um mutirão de limpeza. Mostraremos que esta casa está viva.

Helena concordou, sentindo que a restauração física e a luta jurídica eram, na verdade, a mesma coisa. Eles se dirigiram à sala secreta, onde a poeira dançava sob a luz oblíqua da lanterna. Helena apontou para o relógio de carvalho encostado no canto, coberto por uma camada espessa de fuligem.

— Ele parou no dia em que a casa foi fechada. Alzira dizia que o tempo aqui dentro havia morrido com ela.

Lucas aproximou-se, examinando a caixa de engrenagens exposta. Com a cautela de quem desativa um mecanismo de pressão, ele tocou o pêndulo. Helena inseriu a chave que encontrara sob o assoalho. O clique foi metálico e definitivo. À medida que a corda era tensionada, o relógio não apenas tiquetaqueou; ele deslizou para o lado, revelando um compartimento oco na parede. Dentro, não havia ouro, mas um maço de documentos envoltos em couro que prometiam revelar a verdadeira missão da avó de Helena.

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