Entre a Farinha e o Medo
O cheiro de fermento ácido, que antes significava promessa, agora pendia no ar da cozinha como uma acusação. Helena encarava o painel do forno principal, onde o display digital piscava em um erro intermitente — um código vermelho que traduzia o colapso de toda a sua estratégia de defesa. O festival da colheita, a vitrine que deveria garantir a validade do alvará histórico, estava paralisado. Lá fora, o burburinho dos vizinhos e a presença ostensiva do representante da construtora, anotando cada minuto de inatividade, criavam uma pressão que Helena sentia fisicamente, como se as paredes do pátio estivessem se estreitando.
— Não é um fusível, Helena — a voz de Seu Arnaldo soou atrás dela, seca e desprovida de qualquer otimismo. — O sistema foi forçado. Alguém cortou a fiação de controle sob o reboco. Alguém que sabia exatamente onde o sinal era mais vulnerável.
Helena sentiu o estômago revirar. Ela baixou a chave geral, o estalo metálico ecoando na cozinha silenciosa. Seus dedos, manchados de farinha, tremiam. Ela dedicara cada centavo e cada hora de sono para que aquele equipamento funcionasse, acreditando que a competência técnica seria sua armadura contra a ganância da construtora. Descobrir que o inimigo não estava apenas no escritório do outro lado da rua, mas dentro de suas próprias paredes, era um golpe que a deixava sem chão.
Bia surgiu na porta da cozinha com um saco de estopa no ombro, o olhar direto, sem piedade. — Deixa eu passar. Os clientes ainda estão lá fora esperando o resto da fornada. Você não vai aguentar sozinha com esse forno capenga.
Helena hesitou, os dedos apertando o cabo da pá de madeira. A última vez que deixara alguém entrar no seu espaço de trabalho tinha sido em São Paulo, e terminara com uma faca nas costas. Mas o balcão estava vazio e o cheiro de derrota já se espalhava pelo casarão. — Entra. Só não mexe no caderno do Arnaldo.
Bia não respondeu com palavras. Largou o saco, enrolou as mangas e começou a organizar o estoque com uma precisão cirúrgica. Identificava os lotes pela textura, empurrava os mais velhos para frente, otimizava o fluxo. Em dez minutos, o estoque parecia outro. — A construtora mandou um cara filmar o forno parado hoje de manhã — disse Bia, sem levantar os olhos. — Ofereceram cinco mil pra quem assinar dizendo que o lugar tá insalubre. Meu irmão quase caiu, mas eu falei que ele ia perder a padaria e a vergonha junto.
Helena sentiu o peito apertar. Enquanto trabalhavam, ela encontrou um envelope pardo atrás da caixa de fusíveis, um lugar que apenas Arnaldo ou alguém com acesso total frequentava. Dentro, não havia apenas o manual técnico, mas uma cópia do abaixo-assinado da construtora, acompanhada de um comprovante de depósito bancário de cinco mil reais em nome de Bia.
A clareza da traição foi um corte frio. O papel, com o timbre da construtora e a assinatura de Bia, parecia queimar em suas mãos. A vizinha que a ensinara a ler a "temperatura" do bairro era a mesma que vendia o calor daquele pátio por um punhado de notas.
— Por que o contrato está no seu nome, Bia? — Helena perguntou, a voz cortante, sem espaço para a gentileza.
Bia parou, a mão congelada sobre a bancada. Antes que pudesse responder, o primeiro trovão estremeceu as telhas de barro do casarão. A chuva começou como um estrondo, uma cortina de água que não apenas lavava o pátio, mas ameaçava inundar o estoque e destruir, de uma vez por todas, o trabalho de meses. A sabotagem era apenas o começo; a natureza, agora, exigia o preço final pela sobrevivência do pátio.