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Chapter 2: O Contrato de Vidro

Helena negocia os termos do contrato com Rafael, garantindo acesso aos arquivos da holding em troca de sua fachada como noiva. Durante a gala, Rafael a defende publicamente de Ricardo, consolidando sua posição e revelando que sua escolha por ela é estratégica e baseada em sua capacidade de jogar sujo.

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O Contrato de Vidro

A sala privada cheirava a mogno polido e ao perfume cítrico, seco e caro de Rafael. Do lado de fora da porta maciça, o zumbido da gala de caridade soava como o mar revolto que Helena acabara de atravessar a nado. Ela manteve as mãos cruzadas sobre o colo, sentindo o tecido barato do uniforme de garçonete contrastar com a frieza implacável do ambiente.

Rafael não se sentou. Ele permanecia de pé junto à janela, observando o reflexo de Helena no vidro escuro da noite paulistana. Ele não parecia um homem que acabara de perder uma noiva; parecia um jogador que encontrara uma carta marcada no fundo do baralho.

— O contrato é simples, Helena — disse ele, a voz desprovida de qualquer hesitação. Ele deslizou uma pasta de couro sobre a mesa. — Você assume o lugar de minha noiva desaparecida até a fusão ser assinada amanhã. Em troca, garanto que o conselho não apenas ignore sua origem, mas que você tenha acesso irrestrito aos arquivos da holding que sua família tentou apagar.

Helena sentiu o peso do silêncio. Ela tinha as provas da sabotagem contra o pai guardadas a sete chaves. Se assinasse, estaria entregando sua autonomia a um homem que, até uma hora atrás, era seu maior inimigo corporativo. Mas, se recusasse, sua única chance de derrubar a linhagem que a descartou como lixo desapareceria com a falência da empresa na manhã seguinte.

— Você não quer apenas uma esposa, Rafael — ela retrucou, mantendo a voz firme, recusando-se a baixar o olhar. — Você quer um escudo. E sabe que, ao me escolher, está arriscando sua credibilidade no conselho. Por que correr esse risco por alguém que você desprezava até ontem?

Ele soltou uma risada curta, seca. Sem pedir licença, aproximou-se. O espaço entre eles tornou-se uma zona de tensão elétrica. Ele estendeu a mão para ajustar a alça do vestido simples que ela usava, um gesto de posse pública que parecia uma marca de ferro. Seus dedos roçaram a pele de seu ombro, uma pressão firme, calculada, que não buscava carinho, mas domínio.

— Eu não preciso que você me salve, Rafael — ela disse, sentindo a adrenalina correr. — Preciso apenas que mantenha o seu lado do acordo enquanto eu destruo a farsa que eles construíram.

Helena assinou o contrato com uma caligrafia firme. Ao soltar a caneta, percebeu que a aliança não era apenas um arranjo legal; era uma armadilha, e ele a observava com uma intensidade que sugeria que ele já sabia exatamente o que ela pretendia fazer com a família.

De volta ao salão, o ar era denso. Ricardo, o primo que anos atrás ajudara a orquestrar seu exílio, surgiu entre os convidados com um sorriso insidioso.

— Rafael, é uma surpresa ver você com uma companhia tão... obscura — Ricardo começou, a voz destilando veneno. — O mercado anda tão escasso que precisamos recorrer a quem circula pelos fundos da cozinha? É um risco para a sua reputação.

Helena sentiu o músculo da mandíbula de Rafael contrair-se. Ele não se apressou em responder, deixando que o insulto pairasse. Então, ele a puxou para perto, a mão firme em sua cintura, sinalizando a todos que ela estava sob sua proteção direta.

— A reputação que me preocupa, Ricardo, é a de quem não sabe ler os sinais de uma mudança de maré — a voz de Rafael era baixa, cortante. — Helena não é uma companhia. Ela é a minha noiva. E qualquer ofensa contra ela é uma ofensa contra o meu nome.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. A tia de Helena, observando de longe, empalideceu. Helena sentiu o peso do status que acabara de adquirir e o perigo que ele trazia. No terraço, momentos depois, ela o confrontou uma última vez.

— Por que eu, Rafael? Você sabe que minha família é o meu alvo. Por que me dar a arma para destruí-los?

Ele virou-se, a silhueta recortada contra as luzes da cidade.

— Você presume que a queda deles é o meu único objetivo — respondeu ele, com uma precisão que não permitia dúvidas. — Eu não escolhi você pela sua linhagem, Helena. Escolhi porque, entre todos nesta sala, você é a única que não tem nada a perder e tudo a conquistar. E eu preciso de alguém que saiba jogar sujo quando o jogo exige.

Helena ficou sozinha no terraço, olhando para a cidade. Ela percebeu que não apenas assinou um contrato, mas entrou em um jogo onde as peças estavam se movendo de uma forma que ela ainda não compreendia. Rafael não a queria por conveniência; ele a queria como sua cúmplice em algo muito maior.

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