Chapter 8
O escritório de Arthur Valente não era um ambiente de trabalho; era um santuário de controle. O ar condicionado mantinha a temperatura em um nível que forçava a clareza mental, e o silêncio era tão denso que o som da caneta tinteiro de Beatriz riscando o papel parecia um ato de rebeldia. Ela não esperou o convite para entrar. Caminhou até a mesa de mogno maciço e depositou o aditivo contratual. O papel, crispado e oficial, era uma declaração de guerra.
Arthur não levantou o olhar imediatamente. Ele analisava uma planilha de ativos da holding, a mandíbula travada em uma linha de aço. Quando finalmente ergueu os olhos, a frieza habitual estava lá, mas havia algo novo: uma faísca de reconhecimento. Ele não via mais a noiva substituta; via uma oponente que havia aprendido a ler suas fraquezas.
— Você está testando a minha paciência, Beatriz — a voz dele era um sussurro aveludado, carregando o peso de uma ameaça real. — Depois de tudo o que sacrifiquei para silenciar o ex-noivo da sua irmã, você acredita mesmo que tem margem para renegociar os termos da sua servidão?
Beatriz sentiu o sangue pulsar nas têmporas, mas manteve a postura. Ela não era mais a garota assustada que aceitara o casamento por desespero. Ela era a cúmplice necessária, o ativo que ele não podia descartar sem queimar o próprio império.
— Não é servidão, Arthur. É a formalização do que já está acontecendo — ela respondeu, inclinando-se sobre a mesa, invadindo o espaço vital dele. — Você precisa de mim para manter a fachada, e eu preciso de garantias de que não serei a única a cair quando a casa de cartas desmoronar. Assine. Ou prefere que eu comece a considerar propostas de quem estaria disposto a pagar pela minha versão da história?
Arthur a encarou por um longo momento. Com um movimento seco, ele pegou a caneta e assinou. O gesto foi um reconhecimento: ele preferia tê-la como uma parceira perigosa do que como uma inimiga livre.
Horas depois, o gala do Hotel Unique era um mar de luzes e hipocrisia. Arthur era uma presença estática ao seu lado, sua mão firme sobre a base das costas de Beatriz exercendo uma pressão que ela sabia ser, na verdade, um cerco.
— Você está tensa — Arthur murmurou, o hálito quente contra seu ouvido, um contraste brutal com a frieza do ambiente.
— É difícil relaxar quando se está sobre um palco, Arthur. Especialmente quando o roteiro pode ser alterado a qualquer momento por fantasmas do passado — ela respondeu, mantendo o sorriso impecável para os fotógrafos.
Foi então que ela o viu. Ricardo, o ex-noivo de Helena, não deveria estar ali. Ele caminhava com uma arrogância que não condizia com um homem que acabara de perder uma fortuna em ativos silenciados por Arthur. Quando seus olhos se cruzaram, Ricardo tocou a lapela do paletó, revelando a ponta de um envelope pardo.
— Você não passa de uma substituta, Beatriz — Ricardo sibilou, surgindo das sombras de uma coluna. — Arthur limpou as contas da minha empresa, mas esqueceu que eu tenho as cópias das mensagens originais. Sei exatamente por que Helena fugiu. Se eu cair, a sua farsa desmorona junto.
Antes que Beatriz pudesse responder, o ar ao redor deles mudou. O barulho do salão silenciou-se. Arthur surgiu de um corredor lateral, acompanhado por dois homens em ternos cinzas. Ele não olhou para ela; seu foco era um feixe de luz cortante sobre Ricardo. Sem uma palavra, os advogados de Arthur isolaram o chantagista, conduzindo-o para fora da vista dos convidados com uma eficiência brutal. Arthur voltou-se para Beatriz, conduzindo-a para o carro sob os flashes incessantes dos fotógrafos. O destino de Beatriz estava selado; ela era a noiva intocável, mas o preço daquela proteção era uma vigilância ainda mais estrita.
De volta à cobertura, enquanto Arthur estava isolado em seu escritório, Beatriz aproveitou a oportunidade. Ela acessou o servidor privado do herdeiro. A senha, curiosamente a data do primeiro encontro forçado, cedeu sem resistência. Seu objetivo era encontrar o rastro da transação de Ricardo, mas o que encontrou no diretório principal foi muito mais perigoso.
Havia uma pasta intitulada com seu nome, datada de meses antes do casamento. Beatriz sentiu o ar tornar-se gélido ao clicar no arquivo. Não era sobre Helena. Eram relatórios de investigação sobre ela, sobre sua rotina, suas dívidas, até mesmo o histórico de suas falhas profissionais. Cada documento detalhava como ela seria manipulada para ocupar o lugar da irmã. Ela não fora uma escolha aleatória; ela era o alvo principal desde o início.