O Arquivo de Vidro
O escritório de Arthur Cavalcanti não cheirava a papel ou madeira; cheirava a poder contido, uma mistura de couro envelhecido e o ozônio de servidores trabalhando em silêncio. Helena fechou a porta atrás de si, o clique da fechadura soando como uma sentença. Lá embaixo, a gala de caridade ainda pulsava — um organismo de seda, diamantes e sorrisos ensaiados que ela acabara de abandonar.
Ela não estava ali por curiosidade. Estava ali porque a sobrevivência de sua família dependia de entender o monstro com quem ela havia se casado por contrato. Seus dedos, firmes apesar da adrenalina, navegaram pela interface do terminal de Arthur. A senha não era uma data, mas o código de um projeto imobiliário que falira há uma década. Arrogância ou lembrança? Não importava. A tela iluminou seu rosto com a luz azulada de uma auditoria iminente.
O que Helena viu não foi apenas uma crise de sucessão. Era uma hemorragia. Contas offshore, transferências circulares para um consórcio que ela reconheceu com um estalo de horror: o mesmo grupo que mantinha seu pai sob rédea curta. Arthur não estava apenas protegendo seu legado; ele estava tentando esconder uma fraude federal. O noivado era a cortina de fumaça, a fusão de passivos desenhada para garantir a estabilidade necessária antes que os inspetores batessem à porta.
O som da maçaneta girando foi o único aviso. Helena fechou a pasta de couro sobre a mesa, mas não antes de gravar o nome no topo do relatório: Ricardo Viana. O sócio minoritário que, minutos antes, a observara no salão com a fome de um abutre.
Arthur entrou. Ele não parecia surpreso, o que era infinitamente pior. Ele parecia um predador que acabara de encontrar uma presa que se recusava a correr.
— A curiosidade é um traço caro para uma noiva substituta, Helena — a voz dele era um bisturi, fria e precisa. — Especialmente quando se perde em papéis que não foram feitos para seus olhos.
Helena não recuou. Ela endireitou a coluna, sentindo o peso do vestido de gala como uma armadura.
— A curiosidade é a única ferramenta de sobrevivência em um tabuleiro cujas regras o senhor omite — ela retrucou, a voz desprovida de qualquer tremor. — O senhor vendeu a estabilidade de uma construtora como um noivado de conveniência. Mas isso não é sobre ações, Arthur. É sobre uma auditoria federal que Viana está orquestrando. O senhor não está apenas sendo vigiado; está sendo chantageado.
Arthur fechou a porta atrás de si, diminuindo o espaço entre eles até que o perfume amadeirado dele dominasse o ar. Ele não negou. Seus olhos escuros, antes frios, agora queimavam com uma intensidade que beirava a predação, mas havia algo mais: um reconhecimento relutante.
— Você não é a irmã que fugiu — ele murmurou, aproximando-se. — Você é uma estrategista. O que você quer, Helena? O silêncio, ou uma parte do jogo?
— Quero proteção total para a minha família. E transparência absoluta. Se vamos ser sócios nesta farsa, preciso saber quem puxa as cordas. Viana não está apenas auditando; ele está tentando tomar a construtora.
Arthur soltou um suspiro contido, uma rachadura na máscara de magnata. — Ele tem provas de dívidas que meu pai escondeu por anos. Este casamento me dá a legitimidade jurídica para segurar o conselho por seis meses. Tempo para limpar as contas. Se você sair agora, eu caio. E você cai comigo, pois seu pai está atolado nesse mesmo consórcio.
O peso da revelação foi um golpe físico. Eles estavam presos na mesma teia. Helena estendeu a mão para o contrato que ele segurava, a decisão tomada em uma fração de segundo.
— Então, teremos que jogar mais sujo que ele — ela declarou.
Arthur a observou, o desejo e a desconfiança travando uma batalha silenciosa. Ele cedeu, entregando-lhe os documentos. Quando ela se preparava para sair, o celular em sua bolsa vibrou. Uma mensagem anônima iluminou a tela: Beatriz foi vista.
O ar rareou. Ao atravessar o hall, uma sombra se destacou contra o mármore: Marcelo Viana. O rival de Arthur sorriu, um gesto que prometia destruição.
— A noiva, ou a peça que falta? — ele sibilou. — Você acha que está jogando com Arthur, mas ele apenas trocou um segredo por outro. Eu sei o que aconteceu com sua irmã, Helena. E este contrato não vale o papel em que está escrito.