O Contrato de Vidro
O tilintar das taças de cristal no salão principal do Hotel Fasano era, para Helena Viana, o som de uma sentença sendo lida. Sob o brilho impiedoso dos lustres de Murano, a elite paulistana observava em um silêncio predatório enquanto Ricardo, o homem com quem ela deveria se casar em três meses, soltava sua mão como se o contato fosse uma mácula.
— A união está cancelada — a voz de Ricardo ecoou, calculada para atingir cada investidor influente presente. — Devido à total inconsistência financeira e à falta de alinhamento estratégico da família Viana, não posso mais seguir com o compromisso.
O ar tornou-se rarefeito. Helena sentiu o peso do colar de diamantes que penhorara horas antes — um sacrifício desesperado para garantir sua entrada, uma última tentativa de manter a fachada que agora se tornava sua ruína pública. Ricardo inclinou-se, o hálito frio roçando seu ouvido.
— Você é uma fraude, Helena. A falência do seu pai não é mais um problema meu. Este gala não é lugar para quem não tem lastro.
Ele se afastou, deixando-a isolada no centro do salão. Os olhares ao redor não eram de solidariedade, mas de escárnio. Helena sentiu o sangue drenar, mas sua espinha permaneceu rígida. Ela não seria a mulher que chorava diante de estranhos. Com a cabeça erguida, ela caminhou em direção ao terraço, buscando uma saída que não envolvesse a aniquilação total de seu nome.
O ar noturno de São Paulo era denso. Helena ajeitou o vestido, sentindo o peso do tecido caro, uma última ilusão de status.
— O desespero lhe cai mal, Helena.
A voz de Arthur Cavalcanti cortou a noite. Ele estava encostado na balaustrada, a silhueta esguia recortada contra o vidro, segurando uma taça com a precisão de quem segura um bisturi. Helena virou-se, os olhos brilhando com uma raiva contida.
— Veio aqui para zombar, Arthur? Ou para garantir que o colapso da família Viana seja eficiente o suficiente para o seu balanço financeiro?
Arthur sorriu, um gesto que não alcançava seus olhos cinzentos. Ele sabia exatamente o que estava em jogo: a dívida impagável que o pai de Helena acumulou com a holding dos Cavalcanti.
— Eu não zombo de ativos valiosos — ele deu um passo à frente, invadindo seu espaço pessoal. O aroma de sândalo e poder que ele exalava era sufocante. — Eu sabia da traição do seu noivo antes mesmo de vocês chegarem. Ricardo é um tolo que busca atalhos, mas você... você tem a resiliência que o meu legado exige para a fusão que estou planejando. Preciso de uma noiva, não de uma esposa. Preciso que você seja o rosto da minha credibilidade enquanto eu assumo os ativos da sua família.
Helena sentiu o chão oscilar. Ele não estava oferecendo ajuda; estava comprando sua dignidade.
— E o que eu ganho, além de ser o peão no seu tabuleiro?
— A quitação imediata das dívidas do seu pai e a proteção do seu nome contra o escândalo que Ricardo acabou de criar — Arthur respondeu, o tom de voz imperturbável. — Você terá a influência que sempre desejou, desde que entenda que este anel no seu dedo é um contrato, não uma promessa.
Helena respirou fundo, fixando o olhar no dele. Ela não tinha escolha. Com um movimento firme, ela estendeu a mão.
— Eu aceito. Mas quero a cláusula de proteção financeira redigida e assinada antes do amanhecer. Se for para ser um ativo, serei um ativo caro.
Arthur sorriu, um brilho de admiração genuína cruzando seu semblante frio. Eles retornaram ao salão de gala, o braço de Arthur envolvendo a cintura de Helena com uma posse que silenciou os sussurros instantaneamente. Uma socialite, conhecida pela língua afiada, interceptou-os com um sorriso venenoso.
— Arthur, querido, que surpresa. Achei que você tivesse padrões mais tradicionais.
Arthur não permitiu que Helena respondesse. Ele a puxou para mais perto, seu olhar varrendo a mulher como se ela fosse um inseto insignificante.
— Meus padrões são definidos pela excelência, Cecília. E Helena é, a partir de hoje, a única mulher que dita o ritmo dos meus negócios. Sugiro que cuide da sua própria agenda, antes que eu decida revisá-la.
A socialite recuou, pálida. Helena percebeu, naquele momento, que ele não a protegia por afeto, mas por posse estratégica. Arthur estendeu a mão diante de todos, selando o pacto. Helena aceitou, sabendo que o anel em seu dedo era uma algema, mas também a chave para o cofre que ele desesperadamente precisava abrir — e que ela, a partir de agora, começaria a controlar.