O Altar da Humilhação
O brilho dos lustres de cristal do Hotel Unique não iluminava; ele dissecava. Beatriz sentia cada feixe de luz como uma lâmina fria sobre sua pele, transformando o salão de baile em uma câmara de tortura de vidro e ouro. No centro da pista, o vazio onde deveria estar seu noivo era mais ensurdecedor do que qualquer valsa. O silêncio começou como um sussurro contido entre os convidados, expandindo-se até se tornar um rugido de escárnio que ela sentia latejar contra suas têmporas.
— Ele não virá, não é? — A voz de uma das damas da alta sociedade, carregada de um veneno polido, cortou o ar logo atrás dela.
Beatriz não se virou. Seu vestido de seda, antes um símbolo de status, agora parecia uma armadura que falhara em protegê-la. O golpe não fora apenas o abandono público; o noivo não levara apenas seu coração, mas as chaves dos cofres da empresa de seu pai e todos os documentos sigilosos que sustentavam a fachada de estabilidade da família. Ela estava nua diante de uma matilha que farejava o sangue de sua ruína financeira.
Um movimento no perímetro da multidão interrompeu o falatório. O mar de convidados se abriu, não por cortesia, mas por puro instinto de sobrevivência. Rafael Viana caminhava em sua direção. Ele não era apenas um herdeiro; era a personificação da implacabilidade que Beatriz sempre tentara evitar. O terno impecável, o olhar frio que parecia calcular o valor de mercado de cada pessoa presente, o silêncio que ele impunha apenas com a presença.
— Beatriz. Acompanhe-me. Agora. — A voz dele era um comando, não um pedido.
Ele a conduziu para uma sala privativa, onde a porta se fechou com um estalo seco, abafando o burburinho lá fora. O ar ali dentro era rarefeito, carregado pelo perfume amadeirado de Rafael e pelo zumbido constante de sua autoridade. Beatriz manteve a coluna rígida. Ela sentia o peso do olhar de Rafael sobre si, um escrutínio que não buscava sua alma, mas o seu valor de mercado.
— O seu noivo não apenas fugiu, Beatriz — Rafael começou, caminhando até a mesa de mogno, onde os documentos da fusão das empresas Viana e o grupo da família dela jaziam como um veredito. — Ele levou consigo a chave de criptografia dos servidores da minha holding. Em doze horas, se eu não apresentar uma noiva e uma aliança que valide este contrato de fusão perante o conselho, minha empresa perde a concessão estatal. E o seu pai? Ele será o primeiro a ser investigado pelo desvio que o seu amado noivo deixou como rastro.
Beatriz sentiu o estômago revirar, mas forçou a respiração a se manter estável. A dignidade era a única coisa que lhe restava.
— Você quer uma fachada — disse ela, a voz firme. — Quer que eu substitua a mulher que o traiu para salvar a sua pele e a do meu pai.
— Eu quero uma solução — ele retificou, aproximando-se. A temperatura na sala pareceu subir. — Você tem o nome, a linhagem e a necessidade. Eu tenho o poder de apagar os registros da dívida do seu pai antes que a polícia chegue à porta dele. É uma transação limpa.
Beatriz olhou para a mão estendida dele sobre a mesa, os dedos longos e firmes, um contraste cruel com a fragilidade de sua situação. Não havia espaço para o orgulho quando a liberdade de seu pai estava na balança. Ela percebeu, com um amargor gélido, que a proteção de Rafael era, na verdade, uma algema dourada.
— Você não tem mais escolhas, Beatriz. Apenas a minha proteção.
Ao aceitar, o retorno ao salão foi uma caminhada sobre cacos de vidro. O ar-condicionado parecia inútil. Ao seu lado, a presença de Rafael era uma muralha física que a enclausurava.
— Endireite a coluna — sussurrou ele, a voz baixa, desprovida de hesitação. — Se você demonstrar um milímetro de incerteza, o mercado vai devorar a sua família antes da sobremesa. Lembre-se: eu sou a única armadura que lhe resta.
As câmeras dos fotógrafos começaram a disparar flashes como tiros, iluminando a farsa em que acabara de entrar. Rafael a puxou para perto, a mão dele firme em sua cintura, forçando uma intimidade que queimava através do tecido do vestido.
— Sorria — ele sussurrou contra seu ouvido, o tom perigoso e urgente. — O mundo precisa acreditar que você é minha, ou ambos cairemos hoje.