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Chapter 11: Além do Contrato

O contrato é formalmente anulado. Rafael rasga o documento, libera Beatriz de qualquer obrigação legal e admite que deseja que ela fique por escolha própria. Beatriz confronta-o sobre o conhecimento prévio da fuga da irmã e a compra de silêncio; Rafael explica que o fez para proteger a fusão e, sobretudo, porque já sabia que não conseguiria tratá-la como mera peça. Após o beijo que sela a virada emocional, o pai de Beatriz chega inesperadamente, forçando-os a enfrentar a realidade sem fachada.

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Além do Contrato

O escritório da presidência, no topo da torre, parecia encolher sob o peso do silêncio que veio depois da última assinatura. As paredes de vidro refletiam a cidade acesa, mas nenhuma luz entrava de verdade. Beatriz ficou de pé ao lado da mesa comprida, os dedos ainda sentindo o frio da caneta que o advogado acabara de recolher.

— …nulidade integral, sem ônus remanescente… — o homem terminou a leitura em voz quase inaudível, como se pronunciar aquelas palavras em voz alta pudesse ofender o ar.

Beatriz não ouviu o resto. Ouviu apenas o próprio sangue correndo nos ouvidos. Quatro dias antes, ela havia interrompido uma videoconferência transatlântica para declarar, diante de dezenas de acionistas, que era a substituta — e que entrara naquele altar por decisão própria. A cláusula C-17 fora acionada. A fusão sobrevivera por uma margem de votos tão estreita que ainda parecia um acidente. Rafael, do outro lado da tela, cortara a própria saída estratégica para ficar ao lado dela.

Agora não havia mais saída estratégica para nenhum dos dois.

O advogado empurrou a via final na direção dela.

— Assinatura, por favor, Sra. Vasconcelos.

Ela pegou a caneta. Traço seco, sem tremor visível. Quando ergueu os olhos, Rafael a encarava do outro lado da mesa. Não era o olhar de quem calcula margem de lucro. Era o olhar de quem espera o veredicto.

O advogado recolheu os papéis, murmurou despedidas protocolares e desapareceu. A porta fechou com um clique quase inaudível.

Rafael ficou olhando para o documento diante dele por um tempo que pareceu eterno. Então, sem pressa, rasgou a folha ao meio. Depois ao meio de novo. Os pedaços caíram na mesa como papel sem valor.

— Acabou — disse ele, voz baixa. — Não existe mais linha impressa que obrigue você a ficar.

O silêncio que veio depois foi mais denso que qualquer discussão anterior.

No elevador privativo, descendo, Beatriz fixou os olhos nos números digitais: 34… 33… 32. Sem câmeras, sem acionistas, sem a muleta da fusão que ela mesma salvara.

— Por que rasgou na frente dele? — perguntou ela, sem preâmbulo. — Podia ter mantido a cláusula de extensão. Por que abrir a porta agora?

Rafael estava encostado na parede de aço escovado, braços cruzados, maxilar travado.

— Porque eu não quero mais que você fique por causa de uma cláusula. — Ele descruzou os braços devagar. — Você se expôs na frente da diretoria inteira. Confirmou a substituição publicamente para salvar a empresa. Isso não foi obrigação contratual. Foi escolha sua.

Beatriz virou o rosto para encará-lo.

— E a sua escolha foi rasgar o papel?

Ele deu um passo mínimo na direção dela. O espaço dentro do elevador pareceu encolher.

— Minha escolha foi entender que, se você ficar, tem que ser porque quer. Não porque ainda estamos presos.

As portas se abriram na garagem subterrânea. Rafael estendeu a mão para segurar o botão de fechar. Seus olhos não deixaram os dela.

— Eu não quero que você vá embora. Mas a decisão é sua agora.

Beatriz não respondeu de imediato. Entrou no carro ao lado dele. O motor ronronou baixo, quase discreto demais para o que estava acontecendo dentro dela.

Na cobertura, a mesa estava posta para dois. Porcelana, cristal, talheres alinhados com precisão militar. Nenhum dos dois se sentou.

Beatriz caminhou até a janela. A cidade pulsava lá embaixo, indiferente.

— Você sempre soube — disse ela, sem se virar. — Três dias antes do casamento.

Rafael ficou do outro lado da sala, mãos nos bolsos.

— Sabia.

Ela fechou os olhos por um segundo.

— E pagou para abafar.

— Paguei uma quantia alta para que a fuga da sua irmã não virasse manchete antes da cerimônia. Comprei silêncio. Comprei tempo.

Beatriz virou-se devagar. O reflexo dos dois apareceu lado a lado no vidro escuro.

— Tempo para um casamento que nem era meu.

Rafael sustentou o olhar.

— Tempo para que você pudesse entrar naquele salão sem que o mundo soubesse que sua irmã tinha desaparecido com o dinheiro da família. E tempo para que eu percebesse que, se fosse você no altar, eu não ia conseguir te tratar como apenas uma peça.

O ar entre eles ficou elétrico.

Beatriz avançou. Seus saltos ecoaram no piso polido. Parou a um palmo dele. Levantou as mãos e segurou o rosto de Rafael com firmeza — não com delicadeza, mas com a urgência de quem cansou de orbitar.

Ela o beijou.

Ele respondeu no mesmo instante. As mãos dele subiram para a cintura dela, puxando-a contra si com uma força que não pedia mais permissão. O beijo era entrega crua, sem negociação, sem ensaio. Era tudo o que eles vinham contendo há meses.

Quando se separaram, ofegantes, o interfone tocou. Voz metálica:

— Sr. Almeida, visita não agendada. O Sr. Vasconcelos está subindo.

Rafael estendeu a mão para o botão de liberação do elevador, mas parou. Olhou para ela.

Beatriz apertou a mão dele com força. O coração batia forte, mas o olhar era firme.

— Vamos descobrir o que somos agora — disse ela. — Sem contrato, sem família ditando, sem a elite decidindo o preço.

Rafael assentiu uma única vez.

Apertou o botão.

As portas do elevador começaram a se abrir.

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