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Chapter 9: O Baile das Máscaras

No baile de máscaras do Palácio dos Cedros, Beatriz e Rafael executam o plano de expor Marcelo Albuquerque como mentor do Projeto Sombra. Beatriz atua como isca, provoca reações, recebe o dossiê completo em troca de parceria estratégica e, no clímax, Rafael interrompe a tentativa de humilhação pública de Marcelo, assumindo a substituição como escolha consciente e revelando a traição do antagonista, selando uma aliança mais profunda sob os olhos da elite.

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O Baile das Máscaras

O motorista ainda nem havia desligado o motor quando Beatriz sentiu o primeiro flash cortar a noite. A porta traseira do Bentley se abriu e o ar condicionado do carro bateu contra o calor úmido que subia do asfalto da avenida. Rafael saiu primeiro, estendendo a mão sem olhar para ela — um gesto automático, ensaiado, que não pedia permissão. Beatriz aceitou porque as câmeras já estavam filmando. Os dedos dele estavam frios; os dela, quentes de raiva contida desde a conversa no carro, duas horas antes.

— Sorria — ele murmurou, lábios quase imóveis, enquanto a puxava para dentro do tapete vermelho improvisado na entrada do Palácio dos Cedros.

Ela sorriu. O tipo de sorriso que a elite paulistana reconhece como armadura: lábios fechados, queixo erguido, olhos que não piscam primeiro. Mas por dentro o estômago se contorcia. A foto da biblioteca já circulava em pelo menos três grupos de WhatsApp fechados — ela sabia porque sua prima distante havia mandado print com um único emoji de choque. O ângulo era cruel: Rafael inclinado sobre ela, a mão dele na nuca, o dela agarrando a camisa como quem se segura na beira de um precipício. Nada explícito. Tudo sugestivo. Suficiente para destruir reputações.

Eles atravessaram o salão principal sob lustres que pareciam geleiras suspensas. Cada passo ecoava no piso de mármore negro. Beatriz sentia os olhares como agulhas: alguns curiosos, outros maliciosos, poucos neutros. Seu pai estava em um canto distante, conversando com dois banqueiros, o rosto rígido de quem já contava os prejuízos. Ele não olhou na direção dela. Melhor assim.

Rafael inclinou-se ligeiramente.

— À esquerda, perto da coluna. O homem de terno cinza. Ex-sócio do meu pai. Marcelo Albuquerque.

Beatriz registrou o rosto: cinquenta e poucos anos, cabelo grisalho penteado para trás, sorriso que não chegava aos olhos. Ele conversava com um segurança da mansão Albuquerque — o mesmo que aparecera nas imagens do tablet dois dias antes.

— Ele não age sozinho — Rafael murmurou, apertando o braço dela com força contida. — Mas hoje ele vai se expor.

Beatriz assentiu uma única vez. O plano estava traçado no carro, entre silêncios pesados: ela seria a isca. Ele, o gatilho.

Ela deslizou para o terraço como se o frio da noite fosse apenas mais um acessório. O vestido preto de cetim absorvia a luz das arandelas, tornando-a quase uma silhueta entre os grupos que fumavam e sussurravam. Atrás dela, o salão pulsava com risos ensaiados e taças que tilintavam como pequenas ameaças. Sentia o olhar de Rafael mesmo sem vê-lo — um peso preciso na nuca.

Três minutos já haviam passado.

Parou perto da balaustrada, fingindo admirar os jardins iluminados. Clara Menezes e Sofia Albuquerque aproximaram-se com a naturalidade de predadoras que farejam sangue fresco.

— Beatriz, querida — começou Clara, sorriso afiado. — Você está… radiante. Considerando tudo.

— Considerando? — Beatriz ergueu uma sobrancelha.

Sofia brincou com o colar de esmeraldas.

— Ora, a substituta Vasconcelos aparecendo tão depressa depois do… imprevisto da sua irmã. Corajosa. Ou desesperada.

Beatriz deixou o silêncio crescer.

— Minha irmã viajou a trabalho. Negócios urgentes. Mas fico lisonjeada com a preocupação.

Clara riu baixo.

— Negócios urgentes que envolvem metade do patrimônio da família sumindo junto? Que conveniente.

Beatriz virou-se devagar.

— Conveniente seria alguém ter acesso às contas antes mesmo do sumiço. Alguém que soubesse exatamente onde apertar. Alguém que entende de… projetos paralelos. Como o Projeto Sombra, por exemplo.

As duas congelaram. Sofia engoliu em seco. Clara manteve o sorriso, mas os olhos traíram o pânico.

Então Marcelo apareceu ao lado delas, copo de uísque na mão.

— Senhoras… Beatriz. — O tom era melífluo. — Ouvi meu nome ser mencionado. Algo sobre projetos?

Beatriz sustentou o olhar dele.

— Apenas comentando como certas pessoas desaparecem no momento exato. E outras aparecem com informações muito precisas.

Marcelo sorriu.

— Sua irmã escolheu um momento… teatral para viajar. Mas talvez ela tenha sido ajudada. Às vezes a saída é a única forma de escapar de contratos ruins.

Ele se aproximou um passo.

— Ou de casamentos ruins.

Beatriz não recuou.

— Ou de homens que acham que podem comprar lealdade com criptomoedas e passaportes falsos.

Marcelo piscou uma única vez. Depois digitou algo rápido no celular e se afastou, o sorriso ainda colado no rosto.

Beatriz virou-se para o salão. Rafael já estava se movendo na direção dela.

O corredor de serviço cheirava a cera de chão e tensão velha. Beatriz empurrou a porta de vaivém. Rafael estava encostado na parede oposta, braços cruzados, o nó da gravata ligeiramente desalinhado.

— Ele mordeu — ela disse.

Rafael descruzou os braços.

— Marcelo Albieri não é apenas o chantagista da foto. Ele orquestrou o Projeto Sombra. Tirou sua irmã do país com identidade nova, conta limpa e metade do patrimônio dos Vasconcelos em cripto. Não queria o dinheiro. Queria o caos que o dinheiro deixaria.

Beatriz sentiu o ar ficar denso.

— E você sabia disso antes de me colocar no altar.

— Eu sabia que ela tinha desaparecido. Sabia que alguém a havia extraído. Não sabia que era Marcelo até dois dias depois do casamento. Quando descobri, o contrato já estava assinado. E você já era minha esposa.

Ele tirou do bolso interno do paletó uma chave USB preta, pequena como uma unha.

— Aqui está o dossiê completo. Tudo: transferências, e-mails, câmeras de segurança do aeroporto. Se eu te perder agora, perco o controle da narrativa. E talvez perca você.

Beatriz pegou a chave. Os dedos roçaram os dele por um segundo a mais do que o necessário.

— Eu aceito isso para proteger minha família. Não para salvar você.

Rafael sustentou o olhar.

— Eu sei.

Ela guardou a chave no decote do vestido.

— Então vamos terminar isso.

O salão principal pulsava sob os lustres. Marcelo já estava no palco, tablet na mão esquerda, microfone na direita.

— Senhoras e senhores, antes que a orquestra nos leve para a próxima valsa, permitam-me uma pequena… revelação especial sobre o casal do momento. Beatriz Vasconcelos e Rafael Albuquerque. Ou melhor… Beatriz Vasconcelos e o contrato que substituiu uma noiva desaparecida.

Silêncio cirúrgico. Marcelo ergueu o tablet. A primeira imagem surgiu projetada na parede: Beatriz no altar, véu erguido, mas fotos de arquivo mostravam a ausência da noiva original.

— A família Vasconcelos entregou a filha errada. E o herdeiro Albuquerque aceitou a mercadoria avariada porque o contrato já estava assinado. Uma fusão corporativa disfarçada de casamento.

Risinhos abafados começaram a surgir. Beatriz sentiu o chão oscilar.

Rafael avançou. Subiu os degraus do palco em três passos largos, arrancou o microfone da mão de Marcelo.

— Boa noite. — A voz dele cortou o salão como lâmina. — O que o senhor Albuquerque esqueceu de mencionar é que a substituição foi consensual. Estratégica. E necessária. Porque enquanto ele falava em mercadoria avariada, estava orquestrando a extração da noiva original com o codinome Projeto Sombra. Transferências em cripto. Identidade falsa. Metade do patrimônio dos Vasconcelos levado embora para criar o caos que justificasse a intervenção da minha família.

Marcelo empalideceu.

Rafael virou-se para a plateia.

— Beatriz Vasconcelos não é substituta. É a única que ficou para enfrentar as consequências. E eu escolhi ficar ao lado dela.

Ele estendeu a mão. Beatriz subiu ao palco sem hesitar. Quando os dedos se tocaram, o salão inteiro prendeu a respiração.

Marcelo tentou descer. Beatriz bloqueou a saída com calma letal, aproximando-se o suficiente para que só ele ouvisse.

— A próxima foto será a sua prisão.

Marcelo congelou. Os seguranças da casa Albuquerque já se moviam em direção ao palco.

No auge do baile, sob os olhares de toda a elite paulistana, o verdadeiro antagonista ficou sem máscara — e Rafael, pela primeira vez, escolheu proteger a dignidade de Beatriz acima de qualquer fusão bilionária.

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