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Chapter 10: O Acordo Reescrito

Após a coletiva de imprensa, Arthur e Helena confrontam a nova realidade: o contrato foi rescindido, mas a ameaça de Ricardo e a necessidade de proteger Leo os mantêm em uma aliança perigosa e genuína. Arthur admite que sua proteção agora é uma escolha pessoal, não uma obrigação contratual.

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O Acordo Reescrito

O silêncio na sala de apoio do Centro de Convenções de São Paulo não era vazio; era uma pressão barométrica que fazia os ouvidos zumbirem. Do outro lado da porta de mogno, o burburinho da imprensa — um enxame de flashes e perguntas sobre a "ruptura inesperada" — era o som da narrativa de Arthur Viana sendo estilhaçada.

Helena alisou o blazer. O tecido rígido, impecável, era sua única armadura. Ela não era mais a socialite em ascensão, nem a noiva de fachada que Arthur manobrava como uma peça de xadrez. Em dez minutos, ela havia desmantelado o cronograma de fusão da Viana Corp e, com ele, a gaiola de ouro que a mantinha refém.

Arthur estava encostado na bancada de mármore, o reflexo de sua silhueta distorcido na superfície polida. Ele não parecia o homem que ditava cláusulas como sentenças de morte. Havia uma imobilidade tensa em sua postura, um cálculo silencioso que ele não conseguia mais esconder.

— Você destruiu o cronograma de fusão — disse ele. A voz era baixa, desprovida da aspereza cortante de costume. — Os investidores japoneses não buscam apenas números, Helena. Eles buscam a previsibilidade que você acabou de demolir em rede nacional.

Helena manteve o tablet em mãos. O dossiê da falência de sua família, orquestrada pelos Viana, ainda era uma arma carregada. Ela não recuou.

— Eu destruí o que era necessário para proteger o Leo, Arthur. O contrato era uma conveniência sua, não uma necessidade minha. Se a previsibilidade é um problema para os seus investidores, talvez o problema seja a base sobre a qual você construiu seu império.

Arthur desencostou-se da bancada. O perfume amadeirado, misturado ao cheiro metálico de tensão elétrica, preencheu o espaço entre eles. Ele a observou com uma curiosidade que beirava o respeito, um reconhecimento tardio de que a mulher à sua frente não era mais a presa que ele tentara controlar.

— Você não é mais a mulher que precisava de um nome para sobreviver ao baile de gala — ele admitiu, a voz carregada de uma honestidade perigosa. — Você é uma estrategista que agora detém o meu pescoço. O que pretende fazer com isso?

— Vou salvar o que restou da minha vida — Helena respondeu, o olhar fixo no dele. — E, se a sua fusão for o preço, que assim seja.

No trajeto de volta, dentro do sedã blindado, o ar-condicionado parecia insuficiente. Arthur, ao volante, não dirigia com a precisão mecânica de costume; seus dedos tamborilavam no couro com uma impaciência rara.

— Ricardo não vai recuar — Arthur quebrou o silêncio, os olhos fixos na estrada. — O vazamento para o Portal Radar SP foi apenas o início. Ele sabe que a rescisão pública do contrato nos deixa vulneráveis. Amanhã, na escola de Leo, a imprensa vai querer ver uma família, não um acordo empresarial desfeito.

Helena virou-se para ele. A dignidade em seus ombros não era mais uma armadura, mas uma parte dela.

— Você está preocupado com a imagem ou com o meu filho?

Arthur freou suavemente ao parar no semáforo. Ele finalmente a encarou, e a máscara de bilionário calculista caiu. O que restou foi algo cru, uma vulnerabilidade que ele tentava enterrar sob camadas de poder.

— Eu não estou fazendo isso por culpa, Helena. Não mais. Eu escolhi estar nessa escola com vocês. E se isso significa que eu precise destruir o Ricardo para garantir que ninguém toque no Leo, eu farei. Independentemente do contrato.

Ao chegarem ao apartamento de Helena, a realidade do dia seguinte pesava como chumbo. Eles estavam unidos por uma necessidade que transcendia o papel, mas o custo emocional daquela proximidade era um terreno perigoso. Helena sabia que, ao aceitar a proteção de Arthur, ela estava cedendo algo mais valioso que sua autonomia: o controle sobre seus sentimentos.

— Amanhã — Helena murmurou, parada no hall de entrada.

— Amanhã seremos o que precisarmos ser — Arthur respondeu, dando um passo à frente, invadindo seu espaço pessoal. Ele não a tocou, mas a intensidade de seu olhar era um toque físico. — Mas saiba que, a partir de agora, o jogo não é mais sobre cláusulas. É sobre o que você e eu estamos dispostos a perder para vencer.

Ele se afastou, deixando-a sozinha. O contrato estava rescindido, mas a tensão entre eles, carregada de segredos e uma guerra contra Ricardo que apenas começava, nunca estivera tão alta. O amanhecer traria o confronto final, e Helena sabia que, sem o contrato, eles estavam finalmente expostos um ao outro.

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