Documentos de Traição
O silêncio na cobertura de Arthur Viana não era paz; era uma vigilância cirúrgica. Helena observava o reflexo das luzes de São Paulo no vidro da suíte, sentindo o peso do contrato de noivado como um grilhão invisível. Ele a salvara da ruína pública no baile, mas o custo era uma transparência absoluta que ela não podia pagar. Na mesa de mogno, o envelope deixado por ele permanecia lacrado, uma promessa de documentos que, se expostos, destruiriam sua última linha de defesa sobre a custódia de Leo.
Ao abrir o envelope, a realidade foi um soco no estômago. Não eram apenas registros financeiros; havia um dossiê completo sobre a rotina de seu filho. Arthur não a escolhera por acaso; ele a rastreara, mapeando cada ponto de pressão de sua vida antes mesmo de estender a mão. Ela não era uma noiva; era um ativo sob custódia.
— O café está servido, Helena. E sua agenda para hoje foi reestruturada — a voz de Arthur ecoou pela porta. Ele entrou no quarto, impecável em um terno que parecia uma armadura. — Não tente sair sem a minha escolta. Ricardo ainda tem cópias daquele contrato fraudulento. Se você for vista sozinha, a mídia não perdoará.
— Você não está me protegendo, Arthur. Você está me isolando — ela retrucou, mas ele apenas a observou com uma precisão que a fazia sentir-se despida de qualquer agência.
Mais tarde, na Viana Holdings, o escritório de Arthur era uma extensão de sua mente: fria e calculada. Assim que ele se retirou para uma conferência no andar superior, Helena agiu. Seus saltos não fizeram som algum sobre o tapete persa enquanto ela se dirigia à mesa de mogno. O computador estava protegido, mas um tablet conectado à rede privada estava ao alcance. Ela navegou pelas pastas, o coração batendo com uma cadência que forçava a manter regular. Seus olhos se fixaram em um diretório marcado com o nome de seu ex-parceiro, Ricardo.
O que ela descobriu paralisou sua respiração: Ricardo era apenas um peão. As transações financeiras que financiavam a campanha de difamação contra ela vinham de uma terceira parte, uma holding fantasma que, por sua vez, respondia a Arthur. Ele não estava apenas vigiando o jogo; ele estava criando o terreno para que ela não tivesse outra escolha a não ser o noivado.
Um clique suave ecoou no silêncio da sala. O arquivo "Projeto Herdeiro" abriu, exibindo fotos de Leo na saída da escola. O estômago de Helena revirou. Ele a monitorava há meses, tratando-a como uma variável instável em um cálculo de risco corporativo.
— Curiosidade é um traço perigoso em alguém que já tem tanto a perder, Helena.
A voz de Arthur veio das sombras. Ele não estava gritando; seu tom era de uma calma cortante. Ele caminhou até a mesa com a cadência lenta de um predador. Helena tentou fechar o navegador, mas ele a encurralou contra a mesa, apoiando as mãos nas bordas, prendendo-a no espaço entre seu peito e o mogno.
— Você tem o hábito de colecionar vidas, Arthur, ou apenas a minha? — a voz dela saiu firme, apesar do pânico.
— Eu coleciono ativos que não podem ser perdidos por negligência — respondeu ele, a voz baixa. — Você entrou aqui para encontrar documentos que provassem que eu a manipulei. O que encontrou foi a prova de que, sem a minha vigilância, Ricardo já teria destruído o futuro do seu filho.
Ele inclinou-se, o perfume amadeirado envolvendo-a, forçando uma proximidade física que ela não podia recusar sem comprometer a farsa.
— Amanhã, irei à escola de Leo. Como seu noivo. E você vai sorrir para as câmeras que eu mesmo convoquei. Se tentar investigar novamente, Helena, não serei tão paciente com sua curiosidade. O preço da sua liberdade é a sua obediência total. E você sabe exatamente o que acontece se eu retirar a minha proteção.