Além da Escada
O zumbido da Arena de Neon ainda vibrava nos dentes de Kaelen quando ele desceu do CASCA-19. O ar estava saturado com o cheiro de ozônio e metal superaquecido. O placar suspenso acima da arena exibia seu nome em letras douradas, um contraste brutal com a graxa que manchava suas luvas. Ele não teve tempo de saborear a derrota de Valerius. O sistema de ranking da oficina mal havia atualizado seu perfil para 'Promissor' quando uma silhueta impecável bloqueou seu caminho nos corredores de manutenção.
Era um emissário da facção dominante. O uniforme de seda sintética do homem parecia uma ofensa ao ambiente industrial.
— O Campo de Prova valoriza o mérito, Kaelen — disse o emissário, a voz polida como uma lâmina. — Mas o mérito sem infraestrutura é apenas um desperdício de potencial. Sua família não pode viver de vitórias morais em um setor cortado da rede.
Kaelen sentiu o peso do contrato flutuando no ar. Atrás do emissário, Mira observava de longe, seus olhos fixos no tablet de diagnóstico. O brilho vermelho no canto do visor de Kaelen, indicando uma intrusão de dados, era o aviso final: o 'reajuste' que ofereciam era, na verdade, uma purga tecnológica. Aceitar significava entregar o módulo proibido, sua única vantagem real.
— Minha autonomia não está à venda — Kaelen respondeu, a voz firme apesar da exaustão.
O sorriso do emissário não vacilou, mas seus olhos tornaram-se gélidos. — O mercado tem formas de cobrar o que não é oferecido de bom grado.
Kaelen não esperou. Ele correu para o setor dos sucateiros, mas a realidade o atingiu antes de chegar à porta. O corredor estava silencioso — uma morte sonora. O painel de energia estava morto e uma faixa de aviso do Mercado da Seita colada no metal anunciava: SUPRIMENTO SUSPENSO POR INADIMPLÊNCIA.
Lá dentro, sua irmã lutava para respirar o ar rarefeito e sua mãe segurava um purificador inútil. O Fiscal do Mercado entrou logo atrás, acompanhado de dois assistentes.
— Kaelen. Que bom que voltou — o Fiscal disse, com um sorriso de predador. — A dívida de sangue da sua família foi reavaliada. O patrocínio da facção era a sua única saída. Agora, o sistema apenas retoma o que não pode ser mantido.
Kaelen sentiu o módulo proibido vibrar contra sua espinha, uma promessa de poder perigoso. Ele não poderia ceder. Em um movimento audacioso, ele conectou o CASCA-19 ao painel de distribuição do bloco. O módulo rugiu, drenando o núcleo do frame para forçar a reabertura das válvulas. O alerta de 'Uso Não Autorizado' brilhou em vermelho vivo, enviando um sinal de anomalia para toda a rede da academia.
O Fiscal recuou, alarmado. — Você acabou de condenar sua família à expulsão. O Comandante saberá disso em minutos.
Kaelen não respondeu. Ele mal teve tempo de garantir que o oxigênio voltasse a fluir antes que as sirenes do Campo de Prova ecoassem. Ele foi convocado para a plataforma de inspeção militar, onde o Comandante e um Valerius triunfante o aguardavam.
— Se foi mérito seu, prove — o Comandante ordenou, a mão sobre o cristal de triagem. — Se foi tecnologia proibida, você sai algemado.
Kaelen sabia que tinha 23 horas para a prova final. Com o módulo em modo de conservação extrema e a reputação sob ataque, ele fez a única aposta que lhe restava. Ele subiu na plataforma e expôs o CASCA-19, forçando o módulo a operar em tempo real diante dos inspetores. O metal vibrou, o ar ao redor do frame distorceu com a sobrecarga, e o Comandante, fascinado pela anomalia, abriu a inspeção. Ele sobreviveu, mas o preço foi alto: o CASCA-19 agora estava sob vigilância constante e o cerco social ao redor de sua família estava apenas começando. Ele era um prodígio, mas um prodígio sem lar e com um alvo pintado nas costas.