O Fim da Patente
O chassi de Kaelen gemia, um lamento metálico de mil engrenagens em agonia. O indicador de integridade brilhava em um vermelho pulsante: 1%. O sistema de purga de Silva, antes uma sentença de morte silenciosa, agora rugia através dos alto-falantes da Academia como um trovão de estática, tentando fritar os circuitos internos do protótipo enquanto Kaelen forçava os portões do Pináculo a cederem.
— Você acha que isso é uma vitória, Viana? — A voz de Silva ecoava, carregada de uma autoridade que se esfarelava a cada segundo de transmissão pública. — Você é apenas um erro de cálculo que eu vou apagar.
Kaelen sentiu o calor insuportável irradiar do módulo proibido. Ele não tinha mais margem para manobras; ele tinha apenas o próximo segundo. Com um comando mental brutal, ele não tentou lutar contra a purga; ele a canalizou. Ele redirecionou o excesso de carga de Silva diretamente para o bypass, transformando seu próprio chassi em uma arma instável que o sistema de segurança da Academia não conseguia mais conter. O bloqueio de Silva rompeu-se com um estalo ensurdecedor, deixando o comandante impotente enquanto as luzes do Pináculo piscavam e morriam em uma cascata de falhas críticas.
O Pináculo tremia. Os monitores gigantes, antes usados para exibir a glória dos cadetes de elite, agora mostravam os registros financeiros de Silva: a venda sistemática de chassis de sucateiros para uma corporação militar externa. Kaelen estava no centro da praça, seu mech crivado de faíscas. A autoridade de Silva colapsou sob o peso da verdade. Quando o comandante surgiu em seu próprio mech, uma máquina imaculada, ele não encontrou resistência armada, mas o silêncio cortante de mil alunos que, pela primeira vez, viam seu instrutor como o que realmente era: um mercador de vidas.
— Sua patente não vale nada quando o mercado sabe que você vendeu o futuro deles para os abutres — Kaelen transmitiu sua voz pela rede hackeada.
Silva avançou, mas parou. Seus próprios superiores, temendo a revolta popular e a exposição total, despojaram-no de seu comando via comando remoto, sacrificando-o para manter a fachada da instituição. O tirano caiu, não por uma bala, mas por sua própria burocracia.
Na Plataforma de Honra, o silêncio era absoluto. Um emissário da administração, com o rosto pálido, aproximou-se de Kaelen.
— Você venceu, Viana. Entregue o módulo e aceite a patente de elite. Terá reparação total e o Pináculo aos seus pés. O sistema precisa de alguém com o seu instinto.
Luna, ao lado de Kaelen, mantinha a mão sobre o terminal, os olhos fixos nos dele. Ela havia recuperado peças de nível militar que poderiam estabilizar o chassi de Kaelen em minutos. Era a estabilidade que sua família implorava. Kaelen olhou para o módulo proibido, pulsando em suas costas como um coração de guerra. Ele não era apenas tecnologia; era a prova de que a patente era apenas uma mentira temporária.
— A patente era a coleira — Kaelen respondeu, sua voz firme. — Eu não quero o Pináculo. Eu quero o que vocês nos roubaram.
Ele não aceitou a oferta. Em vez disso, convocou os outros sucateiros. Enquanto cruzavam os portões, o metal do chassi de Kaelen gemia, mas ele não parou. Luna sincronizou seu terminal com a rede externa e a cor do rosto dela mudou instantaneamente.
— Kael, olhe. Não é uma rebelião interna. É uma invasão.
O mapa holográfico mostrava assinaturas de energia massivas movendo-se das Terras Selvagens em direção ao Pináculo. A Academia nunca foi uma escola de elite; era um filtro de carne e metal sacrificado para segurar uma guerra que já havia chegado. Kaelen olhou para o horizonte. A ascensão na escada da Academia terminara, mas a verdadeira guerra, aquela que exigia mais do que números de ranking, estava apenas começando.