O Legado Reivindicado
O ar no escritório da presidência da Lane & Associados não era mais o mesmo. O cheiro de mogno polido e café caro permanecia, mas a atmosfera de opressão, que por anos servira como a armadura de Alberto, havia se dissipado. Beatriz sentou-se na cadeira de couro, sentindo a textura sob suas mãos. Não era um trono; era um posto de comando que ela finalmente ocupava por direito.
À sua frente, o dossiê da auditoria — a prova irrefutável da corrupção de seu tio — estava aberto. Borges, o diretor financeiro, tentou manter a postura, mas suas mãos tremiam ao segurar a pasta de demissão.
— O senhor está dispensado, Borges — a voz de Beatriz cortou o silêncio, firme e desprovida da hesitação que ele esperava da 'substituta'. — E, antes que tente recorrer, sugiro que leia a página quatro. Suas dívidas de jogo foram compradas pela minha holding pessoal. Se houver um único centavo faltando nas contas da empresa, a cobrança será pessoal.
Borges empalideceu, o olhar buscando apoio em Ricardo. O magnata estava encostado na porta, braços cruzados, observando a cena com um brilho de admiração contida. Ele não interveio; ele era o espectador de uma predadora que, finalmente, havia revelado suas garras.
— Isso é impossível — Borges balbuciou.
— O impossível foi o que me manteve fora deste lugar por anos — Beatriz respondeu, fechando o dossiê com um estalo seco. — Dez minutos para retirar seus pertences. Não quero vê-lo no prédio após o almoço.
Quando a sala esvaziou, o silêncio que restou era denso, carregado de uma eletricidade nova. Ricardo aproximou-se, seus passos ecoando no mármore. Ele parou ao lado da mesa, onde a assinatura de Beatriz agora validava cada decisão.
— Você os deixou sem saída — comentou ele, a voz baixa, despida de qualquer artifício. — É um movimento implacável.
— É o movimento que a justiça exigia — Beatriz respondeu, encontrando o olhar dele. Não havia mais a necessidade de esconder sua inteligência sob a máscara da noiva submissa. — O império de Alberto era construído sobre areia. Eu apenas apressei a maré.
Horas depois, no escritório de advocacia, a batalha final tomou forma. Alberto, derrotado mas ainda perigoso, tentava uma última manobra: a liquidação de ativos estratégicos para sabotar a fusão. Ele empurrou uma pasta sobre a mesa, os dedos trêmulos traindo seu desespero.
— Você não pode provar nada, Beatriz — ele sussurrou, os olhos injetados. — Esta liquidação está dentro das cláusulas contratuais. Ricardo não arriscará seu capital por uma impostora.
Beatriz não se levantou. Ela apenas tocou a borda da pasta de Alberto, devolvendo-a com um movimento lento.
— O erro fundamental de sua gestão, Alberto, foi acreditar que eu jogava pelas suas regras. Você não está liquidando ativos; você está vendendo as próprias ações que eu adquiri no mercado aberto durante os últimos meses. O controle majoritário é meu. Você está tentando sabotar a si mesmo.
Alberto congelou. A palidez de seu rosto tornou-se cinzenta. Ele olhou para Ricardo, buscando uma aliança que já não existia. Ricardo, contudo, apenas observava Beatriz com um respeito que beirava o fascínio. A vitória era absoluta. Enquanto Alberto era escoltado para fora, Beatriz sentiu o peso de seu sobrenome — seu verdadeiro nome — finalmente sendo respeitado.
Na mansão, a noite caiu, trazendo um alívio que parecia uma carícia. Beatriz observava o pôr do sol pela janela do escritório, sentindo o contrato destruído na lareira como uma libertação. Ricardo aproximou-se, parando a centímetros de seu ombro. O perfume de sândalo e a tensão inegável entre eles preenchiam o espaço.
— Você desmantelou o sistema que te exilou — a voz de Ricardo era um murmúrio rouco. — O que resta para você agora?
— O direito de escolher — ela começou, mas a porta do escritório foi aberta bruscamente.
Uma mulher entrou, os olhos faiscando com uma mistura de fúria e reconhecimento. Era Mariana, a noiva original, sua presença ali como uma ferida aberta no momento de cura.
— Que bom que a farsa acabou — Mariana disse, encarando Beatriz com um sorriso gélido. — Mas o seu tempo de usurpação termina aqui. Eu voltei para retomar o que é meu por direito, e não me importo com quem tenha que destruir para conseguir.