O Preço da Proteção
O estilhaço de vidro do para-brisa blindado ainda brilhava como poeira de diamante sobre o tapete persa quando Ricardo trancou a porta da suíte. O som do trinco metálico ecoou como um veredito. O sangue no punho da camisa de seda branca de Beatriz não era dela, mas o tremor em suas mãos era real demais para ser ignorado.
Ricardo não se afastou. Ele a conduziu até a poltrona, seus movimentos precisos, quase cirúrgicos, ao remover o estilhaço que havia cortado o braço dela durante a emboscada.
— O segurança que contratamos para ser sua sombra era o informante do seu tio — disse ele, a voz destilada em uma calma gélida que escondia o caos em seus olhos escuros. — Ele não queria nos intimidar, Beatriz. Ele queria nos eliminar.
Beatriz sentiu o estômago revirar. A máscara de submissão, que ela mantinha com tanto esforço, falhou por um milésimo de segundo.
— Você sabia — murmurou ela, encarando-o. — Sabia que o carro seria interceptado.
— Eu suspeitava de uma brecha, mas não de uma traição interna. Você, por outro lado, agiu como se estivesse esperando por isso. — Ricardo pressionou a gaze sobre o ferimento, forçando-a a encontrar seu olhar. — A Mariana que eu contratei teria entrado em pânico. Você apenas verificou se o pendrive estava no seu bolso.
O ar na suíte pesava. Ricardo jogou a denúncia formal contra Alberto sobre a mesa de mogno. Era um atestado de guerra, e a guerra, agora, era pessoal. Beatriz não recuou. Ela caminhou até a mesa e retirou o pendrive, o pequeno objeto metálico que continha a ruína de uma linhagem, e o colocou sobre o contrato de casamento.
— Alberto não quer apenas a fusão, Ricardo. Ele quer o espólio. Ele me apagou da história da família Lane para que não houvesse herdeiros legítimos a contestar sua gestão criminosa — ela declarou, a voz firme, despida de qualquer fingimento. — Eu não sou Mariana. Eu sou a herdeira que ele tentou enterrar viva.
Ricardo estreitou os olhos, a desconfiança dando lugar a uma intensidade sombria. Ele não parecia surpreso; parecia faminto por aquela verdade. Ele se aproximou, parando a centímetros dela, seu perfume amadeirado preenchendo o espaço exíguo entre eles. A proximidade era uma armadilha, mas, naquele momento, era a única proteção que ela possuía contra os homens que ela mesma estava prestes a destruir.
— Você jogou um jogo perigoso, Beatriz — ele sussurrou, a mão roçando o contorno de seu rosto, não com ternura, mas com uma posse possessiva que a fez perder o fôlego. — Mas, a partir de agora, você não joga mais sozinha.
Ele se afastou, deixando-a com o peso da revelação. O silêncio na suíte era ensurdecedor. Amanhã, a cerimônia de casamento seria o palco de sua ruína ou de sua ascensão. Ricardo caminhou até a porta, parando antes de sair.
— Aqui, você está segura — disse ele, o olhar fixo no dela, carregado de uma promessa que a assustava e a atraía na mesma medida. — Mas eu exijo a verdade amanhã. Não haverá mais disfarces diante dos acionistas.
Beatriz ficou sozinha, encarando o espelho e sua verdadeira identidade refletida, enquanto a contagem regressiva para a reunião de acionistas, onde ela revelaria tudo, começava a acelerar.