O Preço da Identidade
O ar-condicionado da Moretti & Associados não servia para resfriar; servia para cristalizar a submissão. Beatriz mantinha a coluna impecável, as mãos pousadas sobre o colo, sentindo o peso da pasta de couro como um escudo contra o olhar gélido do Dr. Arantes.
O advogado tamborilava os dedos sobre a mesa de mogno. O som rítmico marcava a contagem regressiva para a ruína da família que a exilara anos antes.
— Beatriz, sejamos pragmáticos — ele começou, a voz cortante. — A ausência de Mariana na cerimônia de amanhã não é uma desfeita social; é a ruína de um conglomerado. Os acionistas farejam sangue. Se a fusão não for assinada, o nome da família será reduzido a cinzas financeiras até o amanhecer.
Beatriz não desviou o olhar. Ela conhecia aquele jogo. O exílio a tornara invisível, mas não inútil. Ela sabia exatamente o que Mariana levara no cofre antes de fugir: não apenas as joias, mas a confiança de investidores cruciais. A instabilidade da prima era um segredo que a família tentara abafar, mas Beatriz o vira florescer em cada escândalo noticiado nas entrelinhas da coluna social.
— O que isso tem a ver comigo? — perguntou ela, a voz despida de qualquer tremor. — Fui expulsa por ser considerada um erro de linhagem. Por que me chamariam de volta agora, no momento da queda?
Arantes deslizou um tablet pela mesa. A notificação judicial brilhava na tela: uma acusação de fraude financeira na fundação da família, com o nome de Beatriz estampado em documentos forjados.
— A escolha é simples: ou você assume o lugar da noiva, ou será levada sob custódia por um crime que, para todos os efeitos, será seu. A polícia já foi notificada.
Beatriz sentiu o estômago revirar, mas sua mente trabalhava com a precisão de um cirurgião. O contrato de substituição não era apenas uma união matrimonial; era uma sentença de prisão com cláusulas de rescisão que custariam a ela muito mais do que a liberdade. Se assinasse, teria acesso direto aos registros de auditoria da holding, a mesma que a mantivera no exílio. Era o cavalo de Troia que ela esperara anos para construir.
— Quero uma cláusula adicional — Beatriz disse, cortando o silêncio estéril. — Não serei uma figura decorativa. Preciso de autonomia sobre os ativos da fundação e acesso irrestrito aos relatórios de auditoria interna. Se vou salvar o pescoço de vocês, quero as chaves do cofre para garantir que ninguém mais tente me incriminar.
O advogado hesitou, os olhos estreitados. — Isso é um suicídio corporativo. Ricardo não aceitará ser tutelado.
— Ele não aceitará a falência da fusão — ela retrucou. — E ele não sabe, não é? Ele espera a Mariana. Ele não faz ideia de que a noiva que ele contratou para salvar o império dele é, na verdade, a herdeira que vocês tentaram apagar da história.
O som da porta se abrindo interrompeu a tensão. Ricardo entrou. Sua presença não era apenas física; era uma pressão barométrica que parecia sugar o oxigênio. Seus olhos, cinzentos e impenetráveis, cravaram-se em Beatriz. Ele não a via como uma mulher, mas como o último ativo disponível em um tabuleiro onde estava prestes a perder o controle.
Ele caminhou até a mesa e, com um movimento preciso, lançou um documento sobre a superfície. O papel ecoou como um disparo.
— O tempo da diplomacia terminou — disse ele, a voz destilando uma autoridade que não admitia réplica.
Ricardo se inclinou, invadindo seu espaço pessoal, o perfume amadeirado e frio cercando-a como uma muralha. Ele a encarou com uma frieza desdenhosa.
— Você é a única que pode salvar o acordo, Beatriz. Mas saiba que, nesta casa, segredos custam caro. Se você falhar, não haverá exílio que a proteja da minha vingança.