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Chapter 2: A Máscara de Ouro

Helena assume o papel de noiva de Rafael no gala, enfrentando o escrutínio público e a confrontação direta de sua madrasta. Rafael a protege publicamente, mas o custo é sua própria autoridade perante o conselho. O capítulo termina com Helena percebendo que a prova de sua herança está sendo usada como alavancagem direta por Rafael.

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A Máscara de Ouro

O camarim privativo, escondido atrás da imponência do salão de gala da Fundação Viana, cheirava a perfume importado e a uma eletricidade estática que fazia os pelos dos braços de Helena se eriçarem. Ela encarou o espelho, mas a imagem que a devolvia era a de uma estranha: a pele, antes marcada pelo cansaço de uma jornada dupla como garçonete, agora exibia uma palidez aristocrática acentuada pela maquiagem pesada. O vestido de seda branca, uma peça de alta costura que a noiva original abandonara há meros dez minutos, parecia uma armadura que lhe faltava o ajuste.

— O caimento está perfeito — a voz de Rafael Viana surgiu por trás dela, vinda da penumbra. Ele não se aproximou, mas seu reflexo no espelho, imponente e implacável, dominava o espaço. — É uma pena que a dignidade não venha incluída no corte do tecido.

Helena virou-se, os saltos agulha protestando contra o mármore. — A dignidade é a única coisa que não me foi tirada pela sua família e pela minha, Rafael. O que você está fazendo não é me salvar; é me usar como uma peça de xadrez em uma fusão que você quase perdeu.

Ele deu um passo à frente, invadindo seu espaço pessoal. O perfume amadeirado dele era um lembrete constante de sua superioridade financeira. — Você é a única peça que eles não viram chegar, Helena. E, se você falhar hoje, a prova da fraude que apagou seu nome da herança permanecerá trancada no meu cofre, inacessível para sempre. Escolha: prefere ser a garçonete invisível ou a noiva que detém o poder de destruir a farsa da sua madrasta?

O silêncio que se seguiu foi cortante. Helena respirou fundo, sentindo o peso do contrato invisível que os unia. — Eu serei a noiva. Mas não se engane, Rafael: não estou aqui por você.

Ao entrarem no salão principal, o choque térmico do ambiente foi acompanhado pelo peso de centenas de olhares da elite paulistana. Cada passo em direção ao centro do baile era uma negociação de poder. A mão de Rafael, firme em sua lombar, não era um gesto de carinho, mas uma âncora que a mantinha presa ao seu lado.

— Lembre-se — sussurrou ele, o hálito quente roçando seu ouvido. — Se vacilar, a verdade sobre a sua herança morre comigo.

Helena endireitou a coluna, forçando um sorriso que não alcançava seus olhos. O salão estava repleto de rostos conhecidos: os sócios que a ignoraram quando ela foi expulsa, os amigos de infância que fingiram não vê-la. No centro do círculo de poder, Beatriz, sua madrasta, gesticulava com uma taça de cristal. Quando Beatriz girou e travou o olhar no casal, o mundo de Helena pareceu parar. A madrasta avançou, o rosto pintado com uma confusão estudada.

— Rafael? — a voz de Beatriz cortou o murmúrio ambiente. — Onde está minha enteada? Esta moça… não é quem esperávamos para a assinatura.

O silêncio caiu sobre o salão. Helena sentiu o suor frio escorrer por suas costas, mas antes que pudesse responder, Rafael interveio. Ele não recuou; ele se posicionou como uma barreira física, envolvendo Helena com uma possessividade que silenciou os sussurros ao redor.

— A noiva original não possuía a visão necessária para o nosso futuro, Beatriz — a voz de Rafael era gélida, desprovida de qualquer hesitação. — Apresento-lhes minha noiva. E, se alguém aqui tiver alguma dúvida sobre a validade desta união, que a dirija a mim e não à minha futura esposa.

Um dos sócios do conselho, um homem de meia-idade com o rosto avermelhado pelo uísque, deu um passo à frente, ignorando a etiqueta. — O conselho não é cego, Viana. Todos notaram a troca. Quem é essa garota?

Rafael não apenas defendeu Helena; ele a elevou acima do escrutínio, sacrificando sua própria credibilidade no conselho ao declarar, com um desprezo palpável, que a reputação de sua noiva era inquestionável. O ato, porém, teve um custo imediato: o murmúrio de desaprovação entre os investidores tornou-se um rugido surdo. Rafael estava perdendo o controle da narrativa, e o preço de sua proteção estava sendo cobrado em poder corporativo.

Mais tarde, em um escritório lateral, o ambiente era um santuário de mogno e silêncio. Rafael fechou a porta com um estalo seco, o som ecoando como uma sentença. Ele caminhou até a mesa, servindo-se de uísque sem oferecer nada a ela. O desprezo pela etiqueta era, por si só, uma demonstração de força.

— Você arriscou tudo por um teatro — Helena disse, a voz firme apesar da adrenalina. — O conselho não perdoa fraquezas, Rafael. Por que se expor por uma garçonete que você mal conhece?

Ele a encarou, o olhar desprovido de qualquer benevolência. — Eu não a protegi por benevolência, Helena. Eu a protegi porque você é a única peça que ainda pode salvar meu império.

Helena sentiu o peso da armadilha se fechar ao ver, sobre a mesa, os documentos da fusão ao lado de uma pequena chave prateada. Ela percebeu, com um sobressalto, que a prova de sua herança não estava apenas guardada; estava sendo usada como alavancagem para mantê-la sob controle total. Rafael não era um aliado; ele era um carcereiro com um sorriso sedutor, e o jogo estava apenas começando.

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