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Chapter 6: A Máscara de Tiago

Lucas confronta Tiago em um canteiro de obras e descobre que a construtora busca um projeto de infraestrutura ilegal sob o bairro, usando o passado de Lucas como chantagem. A aliança é selada pela urgência: a casa de Dona Elza está sendo invadida para destruir as provas que ligam o pai de Lucas aos desvios financeiros.

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A Máscara de Tiago

O som da britadeira não era apenas ruído; era o tique-taque de um relógio mecânico devorando o bairro. Lucas atravessou a cerca de arame do canteiro de obras, o metal rangendo um protesto agudo contra o silêncio da noite. O ar ali dentro tinha cheiro de cimento úmido e terra revirada, o cenário de sua própria ruína. Tiago estava parado perto de um pilar de concreto, observando o horizonte com a postura de quem já tinha vendido o terreno e a alma que o sustentava.

— Você é previsível, Lucas — disse Tiago, sem se virar. — Acha que pode brincar de investigador com documentos que mal entende. Acha que Londres te deu o verniz necessário para entender o que acontece aqui embaixo.

Lucas parou, os sapatos caros afundando na lama. A proteção do dinheiro de Londres havia acabado; Julian Vane cortara o suprimento, e o silêncio de suas contas bancárias era a prova definitiva de que o jogo mudara. Ele não era mais o herdeiro cosmopolita; era um intruso em seu próprio passado.

— Eu entendo o suficiente — rebateu Lucas, a voz firme, apesar da pulsação acelerada. — Sei que o seu irmão nunca foi o culpado pela dívida que você usa como desculpa. Sei que o erro foi da construtora, e que eles te seguram pelo pescoço justamente por isso. Você não é o algoz, Tiago. Você é a isca.

Tiago girou. O sorriso sarcástico que ele costumava usar desapareceu, substituído por uma exaustão visceral. Ele encostou-se a uma viga, o rosto na sombra, revelando a fresta de humanidade que ele tentava esconder sob a arrogância.

— Você acha que está jogando xadrez? A construtora não quer o seu bairro. Eles querem o solo. Há um projeto de infraestrutura ilegal enterrado sob essa quadra inteira. A gentrificação é só a cortina de fumaça para ocultar o que eles precisam passar por baixo daqui.

Lucas sentiu o estômago revirar. A rede de proteção de seu pai não guardava apenas casas; bloqueava uma rota de escoamento que valia milhões em subornos. Era uma engrenagem que ele, sem saber, ajudara a lubrificar com seus estudos no exterior.

— Por que me contar isso agora? — perguntou Lucas.

Tiago retirou um envelope pardo do bolso da jaqueta, mantendo-o suspenso como uma arma.

— Porque eles não param em você. Eles têm provas irrefutáveis de que a sua carreira internacional, cada conquista em Londres, foi financiada por desvios dessa mesma rede de proteção. Eles têm os registros de entrada e saída de fundos que seu pai tentou esconder. Se você cair, eu caio. Se eu cair, eles passam o trator sobre tudo o que resta aqui.

Antes que Lucas pudesse processar a dimensão da chantagem, o celular de Tiago vibrou com uma luz azul cadavérica. O rosto de Tiago empalideceu.

— Eles anteciparam. Antunes não era o único infiltrado. Eles sabiam que você viria aqui.

Tiago mostrou a tela: um alerta de segurança da construtora marcando a casa de Dona Elza como 'área de intervenção imediata'. A casa não era apenas um imóvel; era o cofre da memória, o lugar onde cada documento sobre o desvio de fundos estava guardado sob o assoalho.

— Se eles chegarem lá antes de nós, não apenas o bairro perde o escudo, mas sua vida de executivo vira uma fraude criminosa pública — disse Tiago, a voz perdendo o tom de deboche. — A construtora não quer o terreno apenas pelo lucro. Eles querem apagar o que seu pai deixou gravado sob aquele assoalho.

Lucas sentiu o peso da realidade: ele não lutava mais por uma herança, mas por sua própria liberdade legal. Ele e Tiago trocaram um olhar de aliança forçada e instável. Correram para fora do canteiro em direção às ruas escuras. Ao longe, o brilho de lanternas cortava a penumbra do bairro. Quando dobraram a esquina da casa de Dona Elza, Lucas viu o portão arrombado e luzes de lanternas movendo-se dentro da sala, sinalizando que a invasão já estava em curso.

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