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Chapter 2: O Livro-Razão das Sombras

Lucas descobre que sua independência financeira em Londres foi financiada pela rede de proteção clandestina de seu pai. Tiago entrega um documento de despejo assinado pelo sócio de Lucas, Julian Vane, revelando uma traição corporativa que conecta o bairro à vida de Lucas no exterior. Dona Elza intervém, entregando uma fita cassete que promete explicar a origem jurídica do impasse.

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O Livro-Razão das Sombras

O sótão da casa da família cheirava a madeira velha e mofo, um contraste nauseante com o ar condicionado do escritório de advocacia em Londres onde Lucas passava seus dias. Ele limpou o suor da testa com as costas da mão, sentindo a poeira grudar na pele. À sua frente, o livro-razão de capa de couro rachado parecia vibrar com o peso do que continha. Não eram apenas números; eram nomes de vizinhos, datas de vencimento e, ao lado de cada entrada, uma anotação em letra cursiva apressada: "Garantia de permanência".

Lucas folheou as páginas, o coração batendo um ritmo irregular. Ele reconheceu o nome de Dona Elza, listado ao lado de uma cifra astronômica datada de três anos atrás. O pai não era apenas um proprietário de imóvel; ele operava um sistema de proteção clandestino, financiando a resistência dos moradores contra as construtoras com o dinheiro que Lucas sempre acreditara ser fruto de investimentos seguros de família. A conclusão atingiu-o como um soco: a independência financeira que lhe permitiu estudar fora, o conforto da vida cosmopolita, tudo fora edificado sobre a taxa de proteção paga por essas mesmas famílias que agora o olhavam com desconfiança nas ruas. Ele fechou o livro com força, levantando uma nuvem de poeira que dançava na luz filtrada pelas telhas. A culpa, fria e metálica, não era um conceito abstrato; era o custo real de sua existência.

O barulho da britadeira na rua de cima parecia um martelo batendo diretamente contra o crânio de Lucas enquanto ele descia para a sala de estar. O ambiente estava coberto por lençóis brancos, fantasmas de uma vida que ele acreditava ter enterrado. A porta rangeu — um som seco, sem o convite da cortesia. Tiago entrou, trazendo consigo o cheiro de asfalto quente e a arrogância de quem já se via dono do terreno. Ele não vestia o uniforme da construtora, mas a atitude era a de um homem que sabia exatamente onde as fundações do bairro estavam podres.

— Você perdeu o prazo, Lucas. Londres não espera o luto dos brasileiros — Tiago disse, parando no centro da sala. Ele jogou uma pasta de couro sobre a mesa, exatamente em cima de uma página onde o nome de Dona Elza aparecia vinculado a uma garantia de imóvel. Lucas sentiu o sangue esfriar. — A casa não está à venda, Tiago. Eu vim apenas para organizar o que sobrou.

— O que sobrou é uma ilusão — Tiago riu, um som desprovido de qualquer traço de camaradagem antiga. — Você acha que sua vida lá fora é limpa? Que seu apartamento em Londres, sua carreira, seu conforto... tudo isso não tem o sangue desta terra? Eu sei de onde veio o capital inicial da sua conta no exterior. Se você não assinar, eu garanto que a sua reputação profissional será o primeiro sacrifício deste bairro.

Tiago saiu sem esperar resposta, deixando para trás o documento de despejo. Lucas, com as mãos trêmulas, abriu a pasta. Seus olhos saltaram para o rodapé do papel timbrado: Julian Vane. O sócio. O homem que, há menos de uma semana, havia brindado ao sucesso de Lucas na fusão da corretora, agora, com um rabisco elegante, carimbava o fim da história daquela casa. Não era apenas o despejo; era a evidência de que sua vida cosmopolita fora desenhada por mãos que, secretamente, operavam a demolição do seu próprio passado. Ele pegou o celular para confrontar Vane, mas a chamada caiu em um ruído metálico, uma estática que soava como uma interferência deliberada.

Na soleira da porta, Dona Elza apareceu, observando a ruína da compostura de Lucas. Ela não parecia surpresa com a visita de Tiago. Em suas mãos, trazia uma fita cassete antiga, com a etiqueta gasta pela umidade.

— Você ainda acha que isso aqui é só uma casa, Lucas? — ela perguntou, a voz cortando o barulho das máquinas como uma lâmina. — Seu pai não guardava papéis por capricho. Ele guardava vidas. O erro jurídico que condenou o bairro não foi um acidente. Ele forçou uma brecha. Se você vender agora, não está apenas passando a escritura; está entregando a chave para que apaguem os registros de quem ele protegeu por décadas.

Ela empurrou a fita contra o peito dele. Lucas olhou para o documento assinado por seu sócio e depois para a fita. O cerco estava fechado, e ele não era mais um observador externo; era o próximo alvo da mesma rede que o formara.

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