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Chapter 1: A Ficha que não deveria existir

Elena Viana descobre que o prontuário de um paciente influente foi forjado para ocultar um erro médico fatal. Ao tentar acessar o sistema para extrair a evidência, ela dispara um protocolo de expurgo automático de 48 horas, prendendo-a em uma corrida contra o tempo enquanto a segurança do hospital começa a cercá-la.

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A Ficha que não deveria existir

O ar no subsolo do Hospital Santa Fé não era apenas viciado; era denso, carregado com o cheiro de papel envelhecido e o desinfetante agressivo que tentava, sem sucesso, mascarar o mofo. Elena Viana, auditora interna, conferiu o relógio: 03h14. O silêncio do arquivo morto era interrompido pelo zumbido errático de uma lâmpada fluorescente, um som que parecia o tique-taque de um metrônomo quebrado.

Ela abriu a pasta de Heitor Gusmão. O herdeiro da rede de concessionárias morrera há exatas quarenta e oito horas. O prontuário oficial, assinado pelo Dr. Arnaldo Siqueira, atestava falência multiorgânica por causas naturais. Elena, porém, não buscava o oficial. Ela buscava o erro.

Seus dedos, protegidos por luvas de látex, deslizaram sobre as páginas até encontrar um fragmento de folha de controle de dosagem, preenchido à mão por uma enfermeira de plantão. O dado não constava no sistema digital. O prontuário oficial omitia uma dose cavalar de cloreto de potássio administrada às 22h00. Não fora uma morte natural. Fora uma execução clínica, limpa e silenciosa.

— Auditora Viana? — A voz, grave e arrastada, cortou o ar como uma lâmina.

Elena fechou a pasta com um estalo seco. Valdir, o segurança, estava parado na entrada. O boné escondia seus olhos, mas o brilho metálico do rádio em seu cinto denunciava a vigilância. Ele não estava ali por acaso; ele estava bloqueando a única saída.

— O setor de auditoria fechou há quarenta minutos — disse Valdir, dando um passo à frente. — O que a traz ao arquivo morto tão tarde, doutora?

Elena sentiu o peso do papel dobrado sob o blazer. Se ele a revistasse, a assinatura falsificada de Siqueira seria sua sentença de demissão e, dada a influência do hospital na cidade-santuário, algo muito pior. Ela manteve o rosto inexpressivo, a máscara de profissional fria que cultivara desde que perdera o familiar por negligência anos atrás.

— Discrepância de faturamento no lote do Dr. Siqueira — mentiu Elena, a voz firme, embora o coração martelasse contra as costelas. — Protocolo de urgência. O senhor tem ordens para impedir auditorias em curso ou quer ser o responsável por explicar ao Dr. Siqueira por que o balanço financeiro da ala VIP está incompleto?

A menção ao nome de Siqueira funcionou como um escudo, mas o brilho nos olhos de Valdir indicou que a intimidação tinha um custo. Ele recuou, mas não saiu de perto. Elena passou por ele, o som de seus saltos no linóleo ecoando como uma contagem regressiva. Ela sabia que ele havia reportado sua localização. A única saída era a verdade.

Ela correu para o terminal de TI isolado no final do corredor. Inseriu sua chave de auditoria. O sistema hesitou. O monitor piscou, uma contagem rítmica que parecia um metrônomo de execução. Ela não estava apenas procurando uma falha; estava tentando provar que o paciente da ala VIP fora assassinado.

O monitor mudou para um tom de vermelho clínico. Uma caixa de diálogo saltou na tela: Protocolo de Integridade Ativado. Expurgo de registros não validados em curso.

Elena sentiu o peso da hierarquia da cidade esmagar seus ombros. No Santa Fé, a verdade era uma mercadoria, e o Dr. Siqueira era o único corretor. O sistema, percebendo a tentativa de extração, iniciou uma varredura de limpeza. O cursor piscava, impiedoso, no canto inferior direito da tela: Expurgo automático em 47:59.

Ela estava presa. O registro original estava sendo destruído byte a byte. Para salvar a prova, ela teria que invadir o núcleo do sistema, um ato que a tornaria, aos olhos de todos, a principal suspeita. Ela olhou para a porta, sabendo que a segurança já estava a caminho. O tempo estava acabando.

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