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Chapter 10: A Escolha do Herdeiro

Rafael renuncia formalmente à presidência, consolidando a posição de Beatriz como líder da fusão. A tensão atinge o ápice quando Gustavo tenta uma última manobra de auditoria, apenas para ser neutralizado pela autoridade de Beatriz e pelo apoio público de Rafael, que declara o contrato extinto em favor de uma aliança real.

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A Escolha do Herdeiro

O silêncio na sala de reuniões da Bittencourt não era apenas a ausência de som; era uma pressão barométrica que parecia comprimir o oxigênio. Rafael Bittencourt, o homem que construíra aquele império sobre a lógica fria dos números, estava sentado em uma cadeira lateral. Ele não era mais o centro gravitacional da mesa. Beatriz era.

Ela mantinha a coluna ereta, o dossiê da 'Herança Contingente' — a prova de que Rafael não a comprara, mas a blindara — repousando sob sua mão direita como um cetro.

— A renúncia de Rafael é um fato consumado — Beatriz declarou, sua voz desprovida de qualquer hesitação. — A estratégia de fusão permanece, não por ser uma conveniência contratual, mas por ser a única via de solvência para os ativos que vocês, em sua miopia, negligenciaram.

Gustavo, na cabeceira, soltou uma risada que não chegou aos olhos. Ele tamborilou os dedos sobre a mesa de mogno, um gesto de impaciência calculada.

— Você fala com a autoridade de quem herdou um trono, Beatriz, mas esquece que o contrato que a mantinha aqui perdeu o fiador. Sem Rafael, você é apenas uma herdeira de uma família em ruínas tentando jogar um jogo de gigantes.

Beatriz sentiu o olhar de Rafael. Não era a vigilância clínica de um CEO avaliando um ativo, mas o foco de um homem que havia sacrificado sua própria armadura para que ela pudesse lutar. O custo daquela renúncia — o isolamento, a perda da presidência, a desconfiança do conselho — pairava entre eles como uma dívida que ela não pretendia pagar com submissão, mas com a vitória.

Mais tarde, no escritório particular, o silêncio era menos opressivo, mas carregado de uma nova eletricidade. Rafael serviu dois copos de uísque, o som do gelo contra o cristal sendo o único ruído. Ele entregou o copo a Beatriz, seus dedos roçando os dela por um segundo a mais do que o necessário.

— O conselho não vai parar, Rafael — ela disse, observando o reflexo das luzes da cidade na janela. — Eles não entendem o que você fez. Eles acham que você perdeu o controle.

Rafael encostou-se à mesa, a gravata frouxa, o semblante despido da máscara de ferro que ele usara por anos.

— Eles confundem controle com poder, Beatriz. Eu passei a vida inteira acreditando que o isolamento era a única forma de manter a Bittencourt intacta. Meus pais me ensinaram que sentimentos eram variáveis de risco. Mas, ao renunciar, percebi que o risco real era manter a farsa. Eu não perdi nada. Eu apenas parei de fingir.

Beatriz deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal que ele sempre mantivera como uma zona neutra.

— Você não ganhou apenas liberdade — ela murmurou, a voz baixa, carregada de uma intimidade que o contrato nunca permitira. — Você ganhou uma parceira que não precisa ser controlada, mas que escolhe estar ao seu lado.

Antes que ele pudesse responder, a porta foi aberta sem cerimônia. Gustavo entrou, seguido por dois membros do conselho. Ele jogou uma pasta sobre a mesa, o som seco ecoando como um tiro.

— Auditoria imediata — Gustavo anunciou, o rosto contorcido em um triunfo prematuro. — Não permitiremos que um ex-CEO e sua esposa de fachada manipulem o patrimônio. Beatriz, o conselho exige sua renúncia.

Beatriz não recuou. Ela sentiu a presença de Rafael atrás de si — uma âncora de aço, uma proteção silenciosa que não a diminuía, mas a sustentava.

— A fusão é legítima, Gustavo — ela respondeu, mantendo o olhar fixo no primo de Rafael. — E os documentos que você trouxe não têm validade jurídica sem a assinatura de quem detém a maioria das ações preferenciais. As quais, como você bem sabe, estão sob minha tutela.

Gustavo riu, um som seco. — Você se acha poderosa por um contrato? Rafael, diga a ela. O conselho não aceitará uma amadora.

Rafael deu um passo à frente, colocando-se ao lado de Beatriz. Ele pegou a caneta que usara para assinar sua renúncia e, com um movimento deliberado, deixou-a cair sobre a mesa. O som metálico foi o veredito.

— O contrato está extinto, Gustavo — disse Rafael, com uma calma que fez o primo recuar. — Eu não sou mais o CEO. Não tenho mais interesses a proteger senão o sucesso da presidente desta empresa. Beatriz não é uma marionete. Ela é a única razão pela qual esta companhia ainda tem um futuro.

Rafael deixou a presidência na mesa, escolhendo ficar ao lado de Beatriz enquanto o conselho observava em choque. Eles não tinham mais contrato, apenas a incerteza de um futuro que eles mesmos precisariam construir.

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