O Peso da Imagem
O escritório de Arthur Alencar era um santuário de mogno e silêncio, onde o ar parecia rarefeito pela pressão das decisões corporativas. Helena não esperou por um convite. Entrou com a pasta que descobrira na noite anterior, depositando-a sobre a mesa de carvalho com um estalo seco que ecoou como um disparo. Arthur não levantou os olhos de imediato; sua caneta tinteiro continuou a riscar o relatório financeiro com precisão cirúrgica. Quando finalmente ergueu o olhar, seus olhos cinzentos não exibiam surpresa, apenas uma calma calculada que fez o sangue de Helena ferver.
— Você sabia que eu encontraria — disse ela, a voz mantendo uma estabilidade de aço. — A pergunta é: você permitiu que eu encontrasse ou sua arrogância finalmente superou sua cautela?
Arthur fechou o relatório, entrelaçando os dedos. A luz do abajur desenhava sombras profundas em seu rosto, ocultando qualquer traço de remorso.
— A arrogância é um luxo que não posso me permitir, Helena. O que você chama de sabotagem, eu chamo de consolidação. Sua firma estava à beira do colapso; eu apenas antecipei o inevitável para garantir que o ativo principal não se perdesse em dívidas impagáveis.
— O ativo principal — repetiu ela, com um sorriso sem humor. — Você não comprou minha firma, Arthur. Você me comprou.
— Eu comprei a sua sobrevivência — ele corrigiu, levantando-se. A altura dele parecia diminuir o espaço entre eles. — E agora, você vai honrar a parte do contrato que exige que sejamos o casal perfeito. O estúdio está nos esperando.
A luz do estúdio era fria, um contraste cortante com a tensão que fervilhava sob a seda do vestido de Helena. Ela se manteve imóvel enquanto os flashes disparavam. Ao seu lado, Arthur não demonstrava desconforto; sua mão repousava na curva de sua cintura com uma firmeza que, para qualquer observador externo, pareceria um gesto de possessão protetora. Para Helena, era um lembrete da jaula em que o contrato a colocara.
— Mais proximidade, por favor. O casal do ano precisa de mais faísca — o fotógrafo instruiu.
Arthur obedeceu, puxando-a contra o corpo. Helena sentiu o calor dele, um contraponto desconcertante à frieza de suas palavras.
— Sorria, Helena — Arthur murmurou contra o lóbulo de sua orelha, sua voz um rosnado baixo, inaudível para a equipe. — A sua reputação depende deste ângulo.
— Minha reputação foi enterrada por você — ela rebateu, mantendo o sorriso fixo enquanto encarava as lentes. — Não finja que se importa com o que a imprensa pensa de mim.
— Eu me importo com a utilidade da sua imagem — ele respondeu, o tom desprovido de qualquer calor.
No instante em que o fotógrafo pediu um beijo, a encenação tornou-se perigosa. Arthur inclinou o rosto, seus lábios roçando os dela com uma intenção que não estava nas cláusulas. Por um segundo, o ar entre eles pareceu ionizado. Helena sentiu o peso do olhar de Arthur, um lampejo de possessividade que ia além da estratégia. Quando se afastaram, o silêncio no estúdio era absoluto. Arthur, ao notar o olhar demorado de um dos colaboradores de Helena sobre ela, fechou a expressão, o ciúme infiltrando-se em sua fachada de gelo.
Horas depois, no salão de baile do Hotel Unique, o ambiente parecia uma câmara de tortura revestida de seda. O zumbido das conversas girava em torno de sua súbita ascensão.
— É fascinante — a voz de Tia Beatriz cortou o barulho, destilando um veneno educado. — Como uma arquiteta com uma firma em ruínas consegue um noivado tão vantajoso? Qual é o truque, Helena? Ou devo perguntar qual é o preço da sua discrição sobre os erros de sua antiga sociedade?
Helena sentiu o peso do olhar de vários convidados. Ela não podia recuar.
— A pergunta é curiosa, Beatriz — respondeu Helena, a voz firme. — Talvez Arthur tenha visto em mim a competência que outros, cegos pela tradição, preferiram ignorar. O sucesso é apenas uma questão de aliança.
Beatriz riu, um som de vidro quebrando. — Competência? Ou talvez o desespero de um herdeiro que precisa de uma fachada para esconder o vazio de seu próprio legado?
Antes que Helena pudesse responder, Arthur interveio, posicionando-se à sua frente. Ele não apenas a defendeu; ele desmantelou a autoridade da tia com uma frieza que chocou o salão.
— Helena é a futura Sra. Alencar por escolha minha, Beatriz. E se a senhora pretende continuar a frequentar os eventos da nossa família, sugiro que trate a minha noiva com o respeito que a sua posição exige. Ou a senhora prefere que eu inicie uma auditoria sobre as suas próprias contribuições de caridade?
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Arthur, o herdeiro perfeito, acabara de sacrificar sua imagem de diplomata para proteger Helena. Ele a tomou pelo braço, guiando-a para fora do salão, mas, antes de saírem, ele a olhou com uma intensidade que sugeria que, embora ele tivesse planejado tudo, o jogo havia saído do seu controle. A viagem de negócios que se aproximava não seria mais apenas uma tarefa; seria um acerto de contas.