Cláusulas de Proteção
O ar na sala de reuniões privativa do hotel era rarefeito, impregnado com o cheiro de mogno polido e a frieza de uma sentença. Helena mantinha a coluna ereta, o vestido de seda pesando como uma armadura que ela não tinha mais autoridade para vestir. À sua frente, Arthur Alencar observava a ponta da caneta tinteiro com uma precisão que beirava a crueldade.
— O contrato não é um pedido de desculpas, Helena — a voz de Arthur era um corte seco, desprovido do verniz de cortesia que ele usava para a plateia lá fora. — É uma apólice de seguro. Se você falhar em seguir o protocolo de imagem da minha família, a proteção que ofereço contra os credores de Ricardo desaparece instantaneamente. Entendido?
Helena sentiu o peso do olhar dele, um escrutínio que parecia mapear cada cicatriz financeira que ela tentava esconder. Ela não tinha margem para orgulho. O escândalo de Ricardo — a fraude que ela tentara conter, a ruína que ele tentara imputar a ela — estava a um passo de se tornar manchete. Arthur era o único escudo, e o preço desse escudo era sua própria autonomia.
— Eu entendo as regras, Arthur — ela respondeu, a voz firme apesar da instabilidade que sentia sob a pele. — Mas espero que o senhor entenda que minha dignidade não é parte do ativo que está sendo negociado.
Arthur soltou um riso curto, um som desprovido de qualquer calor. Ele deslizou o documento sobre a mesa de vidro. A tinta, ainda fresca, selou o destino de Helena com a frieza da necessidade. Ao assinarem, o salão de baile principal parecia agora um palco onde eles eram os únicos atores com um roteiro perigoso.
De volta ao salão, Arthur não apenas a conduzia; ele a ancorava. Sua mão, firme e possessiva na base da espinha de Helena, era um lembrete físico de que a autonomia dela fora, naquele momento, delegada aos caprichos de um contrato.
— Sorria, Helena. A piedade é uma moeda barata, mas a curiosidade é o que realmente nos vende hoje — murmurou ele, a voz baixa o suficiente para ser apenas um roçar de lábios contra a orelha dela, mas carregada de uma autoridade gélida.
Eles pararam sob o lustre de cristal, o epicentro do banquete. Um jornalista de uma coluna social influente, cujos olhos rastreavam Helena com a precisão de um abutre, aproximou-se com um sorriso predatório.
— Arthur, uma surpresa vê-lo acompanhado. A arquiteta Helena Viana não estava sob o escrutínio de falência por conta das auditorias da sua construtora? Ou o senhor está aqui para garantir que ela não desapareça antes do processo?
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Helena sentiu o peso do olhar de centenas de pessoas. Antes que pudesse formular uma defesa, Arthur deu um passo à frente, cobrindo o corpo de Helena com o seu, uma proteção que parecia um cerco.
— O senhor está mal informado, como de costume — a voz de Arthur ecoou, gélida e impecável. — Helena não está sob escrutínio; ela está sob minha proteção. Estamos noivos. O anúncio oficial será feito na segunda-feira, mas creio que o senhor já tenha o seu furo de reportagem para amanhã.
O primeiro flash dos fotógrafos capturou o toque de Arthur na cintura de Helena. O mundo acreditava na mentira; eles começavam a sentir o peso dela.
No interior do Rolls-Royce, o silêncio era um santuário de couro escuro. Arthur mantinha os dedos entrelaçados, o perfil esculpido contra a luz difusa das ruas de São Paulo.
— A cláusula de convivência é inegociável — Arthur quebrou o silêncio, sua voz soando como o atrito de metal contra veludo. — A partir de amanhã, você se muda para a mansão. O conselho precisa ver uma esposa, não uma sócia distante.
Ao chegarem à mansão, Arthur foi chamado para uma crise corporativa, deixando Helena sozinha no escritório. Ela caminhou até a mesa de carvalho, buscando apenas um momento de trégua. Seus olhos foram atraídos por uma pasta azul-marinho deixada sobre o blotter. Não era um contrato. Era um dossiê, encorpado e detalhado, com seu próprio nome impresso na capa.
Com um movimento rápido, ela abriu a pasta. Não eram apenas registros de sua falência. Havia fotografias, cronogramas de suas reuniões arquitetônicas de anos atrás e uma análise minuciosa de um projeto que ela acreditava ter sido enterrado. O ar pareceu rarefeito. Não era apenas um resgate financeiro; Arthur a escolhera por uma razão específica, uma vingança que ela ainda não conseguia decifrar.