Protocolo de Blindagem
A Suíte Presidencial do Hotel Unique não era um refúgio; era uma sala de interrogatório revestida em mármore e seda. Beatriz Viana observava Rafael Alcântara enquanto ele, com a precisão de um cirurgião, organizava as vias do contrato sobre a mesa de mogno. O som do papel deslizando sobre a madeira soou como uma sentença definitiva.
— O escândalo já domina os portais de notícias — disse Rafael, sem desviar os olhos do documento. — Se você não assinar, o mandado de busca será emitido antes do amanhecer. A Viana Consultoria é apenas o primeiro dominó. Eles vão desmantelar sua vida, sua reputação e sua liberdade.
Beatriz sentiu o peso do olhar dele. Não havia ali a promessa de um salvador, apenas a frieza de um estrategista que via pessoas como ativos. Ela pegou a caneta. O metal parecia gélido sob seus dedos, mas ela manteve a postura. Sua dignidade era a única coisa que o escândalo não conseguira arrancar, e ela não a entregaria agora.
— Você não está me salvando por benevolência — Beatriz afirmou, a voz firme, apesar da tempestade interna. — Você precisa de uma esposa para neutralizar os acionistas que questionam sua sucessão. Este contrato é o seu escudo, não o meu.
Rafael não negou. Ele se aproximou, sua silhueta recortada contra as luzes de São Paulo. Ele não a tocou com afeto, mas estendeu a mão para ajustar o colar de diamantes que ela mal sentia sobre a pele. O toque foi uma demarcação de território, um lembrete de que, a partir daquele momento, ela pertencia à órbita dele.
— O jogo mudou, Beatriz. O conselho da Alcântara Holdings já fareja sangue. Se você hesitar por um milésimo de segundo diante das câmeras, a polícia não esperará. Aja como se o mundo fosse seu, ou ele a devorará.
Ao saírem da suíte, o saguão parecia um campo minado. Antes que alcançassem a saída, Helena Vilela, uma socialite cujo prazer residia em dissecar reputações, bloqueou o caminho.
— Beatriz? — Helena riu, um som seco e cortante. — Achei que estivesse escondida sob uma pedra após o fiasco de ontem. É muita audácia aparecer com o Rafael, considerando que ele é o único que pode te manter fora de uma cela na Polícia Federal.
O silêncio no saguão tornou-se absoluto. Repórteres se aglomeraram, os flashes iluminando o rosto pálido de Beatriz. Antes que ela pudesse reagir, Rafael interveio, sua voz cortando o burburinho como uma lâmina.
— Cuidado com o que diz, Helena. Beatriz não é apenas minha convidada; ela é minha esposa. Qualquer calúnia contra ela será tratada como um ataque direto aos interesses da família Alcântara.
O choque no rosto de Helena foi absoluto. Rafael a puxou para perto, a mão firme em sua cintura, comunicando domínio total. Ele não a defendeu por afeto, mas para proteger a fachada que ele mesmo construíra.
Já dentro da limusine, o silêncio era denso. Beatriz observava o tablet de Rafael, onde ele revisava documentos com uma frieza calculada. Ela sentiu o peso do contrato na bolsa e recordou-se de uma cláusula que lera às pressas — algo sobre a Holding Alcântara e um fundo fiduciário que exigia um herdeiro casado.
— O contrato — Beatriz começou, quebrando o silêncio. — A fusão é a fachada. O controle da herança exige um herdeiro casado. Sem essa união, o conselho retém o fundo que sustenta seu império.
Rafael travou o movimento dos dedos. Ele fechou o tablet com um estalo seco. O olhar que ele lançou sobre ela era um campo minado de inteligência e frieza. Ele inclinou-se, o rosto a centímetros do dela, enquanto o motorista serpenteava pelas avenidas. A mão dele subiu para sua nuca, um gesto que parecia uma carícia, mas que, sob a luz dos flashes que começavam a segui-los, era uma sentença.
— Você deveria ter aprendido a ler as letras miúdas, Beatriz — ele sussurrou, a voz carregada de uma promessa perigosa. — Sorria, querida. O mundo está assistindo, e você é minha esposa agora.