Espiral de Desejos
O ar-condicionado do jatinho, embora no máximo, não conseguia dissipar a eletricidade estática que emanava de Arthur. Ele permanecia imóvel junto à escotilha, checando o relógio com uma precisão cirúrgica. Lá fora, na pista do Aeroporto Executivo de São Paulo, o movimento de carros pretos era um prenúncio claro: o Conselho não aceitaria sua ausência na reunião de acionistas, e menos ainda a presença de Helena como seu escudo diplomático.
— Eles chegaram — anunciou Arthur, a voz desprovida de hesitação. Ele não se virou, mas sua mão, firme sobre o encosto da poltrona de couro, revelava a tensão que se recusava a verbalizar. — A ordem de bloqueio será emitida em minutos. Se não decolarmos agora, o dossiê que você carrega na bolsa não servirá para nada além de alimentar o fogo de uma lareira.
Helena apertou a alça da bolsa contra o colo. O peso do documento — o mapa da ruína financeira dos Valente e, por extensão, a sua própria — parecia maior do que nunca. Ela observou a linha rígida dos ombros dele. Aquele homem a havia comprado, planejado cada passo de sua queda, e agora, por uma ironia cruel, ele era o único interessado em mantê-la viva.
— Você não está apenas fugindo de uma auditoria, Arthur — disse ela, a voz baixa, cortante. — Você está fugindo da verdade.
O jatinho decolou, deixando para trás a segurança da vida pública e selando o destino de ambos no retiro remoto na serra. Quando chegaram ao hotel, a tempestade não era apenas um fenômeno meteorológico; era uma barreira física que isolava a ala norte por risco de deslizamento. O concierge, visivelmente nervoso, entregou a única chave magnética disponível.
— Apenas uma suíte presidencial, Sr. Valente — repetiu o funcionário, evitando encarar Helena.
Arthur não hesitou. Seus dedos envolveram o cartão com uma firmeza possessiva. Dentro da suíte, a elegância do ambiente era sufocante. O ar gélido contrastava com a eletricidade que emanava de Arthur enquanto ele soltava o nó da gravata, um gesto de despojamento que revelava a exaustão que ele tentara esconder.
— Você não precisa ficar no mesmo ambiente que eu — Arthur disse, a voz rouca, sem se virar. — O contrato garante sua segurança, não sua companhia.
— O contrato é uma farsa, e você sabe disso — Helena retrucou, aproximando-se. — Por que me vigiava antes mesmo da falência? Por que eu, Arthur?
A eletricidade vacilou e a suíte mergulhou na escuridão. O silêncio que se seguiu era denso, carregado pela pressão da tempestade e pela proximidade física que ambos tentavam ignorar. Arthur tateou a mesa lateral, o clique de um isqueiro de prata rompendo o breu. A chama oscilou, iluminando o rosto dele antes de acender duas velas. A luz bruxuleante esculpiu sombras profundas em suas feições, tornando-o mais impenetrável.
— Você quer saber por que eu observava cada passo seu? — Arthur questionou, a voz vibrando na penumbra. Ele não se aproximou, mas a forma como ocupava o espaço parecia diminuir o quarto. — Naquela noite no clube, três anos atrás, eu não estava apenas observando. Eu estava protegendo o único segredo que mantém nossa linhagem no poder. Você é a testemunha, Helena.
A tensão entre eles atingiu o ápice. O dossiê, esquecido sobre a mesa, parecia irrelevante diante da urgência daquele momento. O contrato de 'apenas negócios' foi deixado de lado, substituído por um magnetismo que nenhum deles conseguia mais negar.
Na manhã seguinte, a luz da serra trazia a claridade implacável de um interrogatório. O Conselho havia enviado uma notificação de liquidação forçada. Helena observava o reflexo de Arthur no vidro da varanda.
— Eles querem que eu escolha — Helena disse, a voz firme, embora as mãos tremessem. — O Conselho ofereceu a mansão da minha família de volta, livre de dívidas, se eu entregar o dossiê.
Arthur girou, o rosto uma máscara de perfeição calculada. Ele invadiu seu espaço pessoal, parando a poucos centímetros.
— E o que você decidiu? — ele perguntou, o desafio intelectual brilhando em seus olhos.
Helena sustentou o olhar, sentindo a autoridade que o nome dele lhe conferia. Ela estava pronta para enfrentar as amigas e o Conselho, armada com a nova dinâmica de poder que ela própria acabara de reescrever.