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Chapter 1: O Preço da Dignidade

Beatriz enfrenta a humilhação pública em um gala beneficente, sendo salva por Rafael Viana. Ele revela que comprou a dívida da família dela e exige um casamento por contrato para satisfazer uma cláusula sucessória, deixando Beatriz sem alternativas.

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O Preço da Dignidade

O cristal da taça de champanhe parecia pesar uma tonelada nas mãos de Beatriz. Ao redor dela, o salão do hotel Unique pulsava com a arrogância silenciosa da elite paulistana, um ecossistema onde a fortuna não era apenas dinheiro, mas um distintivo de moralidade. E, naquela noite, o distintivo de Beatriz estava manchado.

— Soube que a mansão dos Alencar vai a leilão na terça-feira — a voz de Patrícia, uma antiga conhecida de colégio, cortou o ar com uma precisão cirúrgica. Ela não olhava para Beatriz, mas para o próprio reflexo em um espelho decorativo. — É uma pena. O sobrenome de vocês sempre teve um peso, mas parece que agora só resta o peso da dívida.

Beatriz sentiu o sangue drenar de seu rosto, mas manteve a postura, o queixo erguido como se estivesse usando uma armadura invisível. O salão estava cheio de abutres disfarçados de filantropos. Cada sorriso falso era um lembrete de que sua falência não era apenas um infortúnio financeiro; era uma sentença de exclusão social.

— O leilão é um assunto privado, Patrícia — respondeu Beatriz, sua voz firme, embora o coração martelasse contra as costelas. — Assim como a minha vida. Se você não tem nada de útil a dizer, sugiro que encontre outro alvo para sua mediocridade.

Patrícia riu, um som seco que atraiu olhares curiosos. O círculo ao redor delas se fechou, transformando o espaço em uma arena. Quando Helena, outra socialite que até o mês passado frequentava os jantares de sua família, se aproximou, o ataque tornou-se coletivo.

— É uma audácia tremenda aparecer aqui, Beatriz — disse Helena, com um sorriso que não chegava aos olhos. — O convite foi enviado por erro da secretária, suponho. Ou talvez você tenha vindo buscar as sobras do buffet?

Beatriz sentiu o ar rarefeito. A dignidade era seu último ativo, e ela não o entregaria ao escárnio público. Antes que pudesse formular uma resposta que não revelasse seu desespero, uma sombra imponente se interpôs entre ela e o grupo. O perfume caro de sândalo e tabaco de Rafael Viana anunciou sua presença antes mesmo de ele falar.

— O convite é meu, Helena. E, a menos que queira discutir o balanço financeiro da sua própria família sob a luz deste salão, sugiro que encontre outro entretenimento.

A voz de Rafael era baixa, desprovida de qualquer emoção, mas carregada de uma autoridade que silenciou o grupo instantaneamente. Helena empalideceu, fazendo uma reverência rápida antes de se retirar com as outras. O silêncio que ficou no lugar do burburinho era quase mais pesado.

— Não pedi sua ajuda — Beatriz disse, sem olhar para ele, tentando recuperar o fôlego.

— Eu não ajudei você. Eu apenas silenciei um ruído que me incomodava — Rafael respondeu, seus olhos escuros fixos nos dela com uma intensidade que a fez sentir-se despida. — Venha comigo. A varanda está mais silenciosa, e precisamos conversar sobre o seu futuro.

Ele não esperou por uma resposta, caminhando em direção às portas de vidro. Beatriz hesitou por um segundo, mas a consciência de que todos os olhares do salão ainda estavam sobre ela a forçou a segui-lo.

Na varanda, a brisa noturna não trazia frescor. Rafael não se aproximou como um cavalheiro; ele ocupou o espaço como um predador que marca seu território. Ele não olhava para a vista da cidade, mas para ela, com uma precisão cirúrgica.

— O jogo acabou, Beatriz — ele disse, a voz baixa, desprovida de qualquer traço de galanteio. — Seus credores não são pacientes como eu. Na verdade, eles já venderam os direitos da sua dívida para a minha holding. Amanhã, o oficial de justiça não vai bater na porta da sua casa para pedir um autógrafo.

Beatriz sentiu o mundo girar. Ela forçou o queixo para cima, recusando-se a desmoronar.

— Então é isso? Você me salvou da humilhação pública apenas para garantir que a humilhação privada fosse toda sua? Que tipo de negócio é este que exige que eu sacrifique minha liberdade?

Rafael tirou um documento de dentro do paletó e o estendeu, um envelope pardo que parecia conter o peso de todo o seu passado.

— Não é a sua liberdade que eu quero, Beatriz. É a sua assinatura. Eu preciso de uma esposa para desbloquear a cláusula sucessória da minha empresa, e você precisa de alguém que impeça o leilão da sua casa e a sua prisão por fraude financeira.

Ele deixou o envelope sobre a mesa de mármore entre eles. O relógio de pulso de Rafael marcava o tempo que ela não tinha mais.

— O contrato está aqui — ele continuou, o olhar impiedoso. — Um casamento de fachada, um ano de performance pública, e sua dívida desaparece. Recuse, e amanhã você estará nas manchetes por motivos muito menos elegantes do que um noivado.

Beatriz encarou o envelope. A escolha era uma ilusão; ela não tinha escolha. Ela estendeu a mão, sentindo o papel frio sob os dedos, enquanto percebia que sua vida, como ela a conhecia, terminava ali, selada por um sim que ainda precisava ser pronunciado.

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