Prova de Fogo
Kaelen acordou com o antebraço esquerdo rangendo como se o osso estivesse se desfazendo em lascas. Setenta e uma horas e trinta e oito minutos até o duelo do quadragésimo andar. O cronômetro na parede do cubículo 17-B não perdoava arredondamentos. Cada inspiração profunda fazia as microfraturas nas costelas e nas mãos cantarem em coro — ele já distinguia nove pontos exatos pela dor. O núcleo de eco negro, agora completamente fundido ao dantian médio, permanecia quieto. O preço estava gravado na carne.
Ele precisava testar o ganho antes que a arena o matasse. Sentou-se em lótus no chão frio. Inspirou uma vez, devagar. O qi respondeu mais denso, mais rápido. A medição da noite anterior marcava 37% de aumento na saída bruta. Teoria não valia nada. Prática quebrava ossos.
Segunda circulação. O fluxo subiu como chumbo derretido. Ao atingir os antebraços fraturados, estalos curtos ecoaram dentro da pele. Dor subiu até a nuca. Ele rangeu os dentes e forçou a terceira, a quarta. Na quinta, o núcleo respondeu com violência contida — pico súbito que fez os sensores do cubículo piscarem vermelho por meio segundo. Quarenta e um por cento acima da baseline anterior. O bastante para virar um combate. O bastante para o corpo ceder antes.
Sangue fino escorreu do canto da boca. Kaelen cuspiu no chão, amarrou faixas improvisadas com tiras da túnica nos antebraços e costelas, engoliu o grito que subia e saiu mancando em direção à Arena Central.
As portas de bronze se abriram com um baque surdo. O rugido da multidão bateu como ar quente. Milhares de olhos subiram das arquibancadas até as cabines VIP. Dante permanecia de pé, braços cruzados, sorriso afiado. Ao lado dele, Rafael girava devagar uma lança de cristal negro cravejada de runas de terceira ordem — o tipo de equipamento que custava o que Kaelen nunca teria.
O placar flutuante pulsava: Kaelen Vyr – Posição 187 – Eficiência média: 41% Rafael Dorn – Posição 42 – Eficiência média: 89%
A diferença era um tapa na cara. E todos sabiam.
— Resolveu aparecer, azarão? — Rafael plantou a lança na areia. Ondas visíveis subiram pelo chão. — Achei que ia sumir depois de humilhar meu mestre no leilão.
Kaelen caminhou até o círculo de contenção sem responder. Cada passo reverberava nas fraturas. O locutor anunciou o confronto. A multidão explodiu.
O gongo soou.
Rafael avançou como aríete. O bracelete de amplificação no antebraço direito pulsava vermelho a cada ciclo. Primeiro soco rachou o ar. Kaelen girou o tronco no último instante, deixou o punho passar a três dedos da têmpora e absorveu o contragolpe de cotovelo na lateral. A costela rangeu alto o suficiente para ele ouvir acima do barulho.
Ele não bloqueava mais. Contava.
Primeiro ciclo: gancho direito → pausa de 1,8 segundo para dissipar calor. Segundo ciclo: mesma combinação. Kaelen deixou o soco roçar o ombro, usou o impulso para rodar e cravou o calcanhar na areia, medindo o recuo do bracelete. Terceiro ciclo: Rafael confiou demais na força bruta. Kaelen absorveu outro golpe na costela já comprometida, cronometrou o intervalo exato entre sobrecargas.
Na terceira saturação crítica do bracelete — vermelho máximo sem refrigeração secundária —, Kaelen canalizou 87% da nova capacidade em um único golpe. Não foi bonito. Foi cirúrgico. O punho direito, envolto em faixas ensanguentadas, desviou a lança e acertou o plexo solar de Rafael com força contida — o bastante para dobrar o diafragma e apagar o ar sem matar.
Rafael caiu de joelhos. O bracelete chiou, soltou faíscas azuis e morreu. O protegido de Dante ficou ofegante na areia, olhos arregalados, incapaz de se levantar.
O sensor central emitiu um bipe seco. Vermelho puro. A placa flutuante congelou: 94,7% de eficiência de conversão de qi — recorde na faixa 180–200.
Silêncio. Não silêncio educado. Silêncio de quem viu uma lei ser quebrada.
Kaelen permaneceu de pé, braço esquerdo pendurado, dedos tremendo em espasmos. Cada respiração fazia as costelas rangerem. O qi ainda ecoava dentro dele — preciso, contido. E isso era o que mais assustava.
Na tribuna elevada, Dante se levantou devagar. Rosto branco, punhos cerrados. A multidão ainda não respirava.
Kaelen não comemorou.
Mestra Valéria desceu da área de arbitragem com passos deliberados. O manto negro roçava a areia. Parou a dois metros dele.
— Você acha que isso acaba aqui? — murmurou, só para ele.
Entregou um selo de convocação. O papel pulsava com runas de restrição.
— Amanhã, meia-noite. Torre da Ordem. Não se atrase.
Ela virou as costas. A multidão explodiu em murmúrios, gritos, rugidos. Kaelen só ouvia o silêncio que havia caído antes — e o peso do selo na palma da mão.
O sensor de eficiência marcou um recorde, e o silêncio na arena foi ensurdecedor.