O Livro-Razão de Sangue
Lucas forçou o ombro contra a estante de mogno. O móvel, pesado e carregado com décadas de arquivos, rangeu como uma articulação enferrujada. O suor escorria pela nuca, arruinando a camisa de linho que ele trouxera de São Paulo — uma peça cara, feita para reuniões em escritórios climatizados, não para o calor úmido e o mofo que impregnava o escritório de Chen Wei.
Ele praguejou em português, a língua soando estranha e áspera na própria boca, um lembrete de que ele era um estrangeiro ali. Com um último esforço, a estante cedeu. O assoalho, revelando uma tábua solta, exalou um cheiro de papel velho e terra batida. Lucas enfiou os dedos na fresta, sentindo a lasca de madeira perfurar a pele. Puxou. O estalo seco da tábua soltando-se ecoou pelo cômodo silencioso.
Sob o assoalho, envolto em plástico preto, estava o livro-razão. A capa de couro, gasta e rachada, parecia pulsar sob seus dedos. Ele não queria tocá-lo. Queria apenas a escritura do imóvel, o documento que selaria a venda para o grupo de Zhang e o libertaria daquele bairro que parecia querer engoli-lo.
Abriu o volume. As páginas amareladas estavam preenchidas com uma caligrafia apertada e precisa. Não eram registros de uma loja de conveniência, como ele sempre acreditara. Eram nomes. Dona Li, da padaria. O filho do Sr. Wong. A família dos fundos da Rua dos Imigrantes, 49. Ao lado de cada nome, quantias que, somadas, atingiam R$ 280.000,00. No rodapé, a nota recorrente: garantia real – imóvel R. Imigrantes, 47.
O ar no escritório tornou-se irrespirável. Lucas sentou-se no chão, as costas contra a parede, o livro aberto no colo. Ele virou as páginas, a respiração curta, até que a caligrafia do pai saltou aos seus olhos: Lucas Chen – fiador solidário – R$ 280.000,00 – vencimento 90 dias atrasado.
O choque foi físico, um soco no estômago. Ele se lembrou daquela viagem de três anos atrás. O pai pedira para assinar uma procuração para movimentar uma conta conjunta — "só para emergências", dissera Chen Wei. A palavra agora tinha dentes. Ele fora usado como fiador sem saber, sua assinatura servindo de escudo para a sobrevivência de dezenove famílias. Se ele vendesse o imóvel, o banco executaria a hipoteca. O bairro cairia como um dominó.
A porta rangeu. Mei estava parada no corredor, o avental sujo de farinha, o olhar fixo no livro.
— Você achou — disse ela, sem surpresa.
— Por que meu nome está aqui, Mei? — Lucas levantou-se, a voz trêmula de raiva.
— Porque seu pai precisava de um CPF limpo, de alguém que o juiz não pudesse ignorar. Ele usou a procuração que você assinou.
— Ele falsificou minha vida!
— Ele protegeu a nossa — retrucou Mei, dando um passo à frente. — Essas famílias pagam aluguel simbólico há quinze anos. Em troca, seu pai impedia os despejos. Enquanto a casa estiver no nome dos Chen, Zhang não entra. Se você vender, dezenove famílias, incluindo a minha, estarão na rua amanhã.
Antes que Lucas pudesse responder, três batidas secas ecoaram na porta da frente. Era o homem de terno cinza, o enviado de Zhang. Ele estendeu um envelope pardo com a proposta de compra: R$ 1,2 milhão. Quitação da dívida, lucro imediato.
— O senhor Zhang quer resolver isso hoje. Evita constrangimentos — disse o homem, o sorriso fixo, desprovido de calor.
Lucas olhou para o envelope, depois para Mei, que o observava da penumbra do corredor. Ele pegou o contrato, rasgou-o em pedaços e deixou que caíssem no chão como confete sujo.
— Diga ao seu patrão que a casa não está à venda.
O cobrador inclinou a cabeça, o sorriso mantendo-se inalterado.
— O prazo vence em breve, senhor Chen. O cartório já tem os papéis. Lamentaremos o desfecho.
Quando a porta se fechou, o silêncio voltou a reinar, mas agora era um silêncio carregado. Lucas sentiu o peso do sobrenome Chen como uma âncora. Ao sair para buscar ar, notou um vulto na sombra da padaria. Alguém o vigiava. A dívida não era mais apenas do pai; era dele, e o bairro inteiro agora sabia que o herdeiro tinha retornado para pagar a conta.