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Chapter 10: A Escolha do Herdeiro

Lucas confronta Siqueira no funeral do pai, recusa a oferta de fuga para Londres e decide expor o esquema de corrupção do contador, assumindo plenamente seu papel como guardião da rede.

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A Escolha do Herdeiro

O ar dentro da capela estava saturado de lírios e o cheiro acre de cera queimada, uma mistura que Lucas sentia como um nó na garganta. O caixão de seu pai, um bloco de madeira polida, parecia uma ilha de silêncio absoluto em meio ao murmúrio ansioso dos presentes. Mas, para Lucas, o perigo não residia no morto. Estava em Siqueira, que circulava entre os convidados com a precisão de um predador em águas rasas.

Siqueira não estava ali para prestar condolências. Ele observava Lucas com um sorriso de escárnio, como se o funeral fosse o ato final de uma peça que ele mesmo dirigia. Quando o emissário finalmente se aproximou, o espaço ao redor de Lucas pareceu rarear.

— A sucessão não é um convite, Lucas — Siqueira sibilou, a voz baixa o suficiente para não atrair a atenção de Dona Alzira, que vigiava cada movimento do sobrinho de um canto da sala. — Seu pai deixou uma dívida de alto risco lastreada na sua assinatura. Se você não formalizar a herança agora, o sistema que sustenta essa rede colapsa em vinte e quatro horas. Você sabe o que acontece quando o fio se rompe: as famílias que dependem dessas remessas serão as primeiras a perder tudo.

Lucas sentiu o peso do chip de memória de Tiago no bolso interno do paletó. Era uma peça de plástico minúscula, mas continha a prova de que Siqueira não era o guardião da rede, mas seu maior parasita. Antes que pudesse responder, Dona Alzira surgiu ao seu lado, a mão calejada apertando seu braço com uma força surpreendente. Ela não olhou para Siqueira; seus olhos estavam fixos no caixão do irmão.

— O fio é mais forte que a ganância, meu filho — ela sussurrou, sem mover os lábios. — Deixe que ele pense que tem o controle. O predador só é perigoso enquanto acredita que a presa não sabe onde mora.

Lucas percebeu o tremor nas mãos de Siqueira. O homem não estava confiante; estava desesperado. A rede era o único ativo que mantinha seu status. Siqueira gesticulou para um escritório lateral, um cubículo abafado que cheirava a mofo. Lucas seguiu-o, o coração martelando contra as costelas.

Lá dentro, Siqueira jogou um envelope pardo sobre a mesa de madeira gasta.

— Assine. Assuma a dívida como herança legítima, e o passaporte que deixei no seu hotel em Londres estará ativo em uma hora. Você volta para sua vida, para sua carreira, para o anonimato que tanto preza. A rede? Ela se dissolve sozinha. Deixe-os afundarem. É o preço da sua liberdade.

Lucas encarou o papel. A assinatura forjada de seu pai estava lá, mas o lastro era o seu próprio nome. Ele pensou em sua vida em Londres, na tranquilidade de um escritório onde ninguém dependia da sua sobrevivência. Então, ele tocou o chip no bolso. Ele tinha em mãos a apólice de seguro digital que poderia destruir Siqueira, mas usá-la significava queimar a rede que ele jurara proteger. Ele não era mais o herdeiro relutante; ele era o avalista de uma comunidade que não tinha para onde ir.

Ele saiu do escritório e caminhou até o estacionamento, sob a chuva fina. Siqueira esperava junto a um sedã preto, o cigarro aceso iluminando seu rosto tenso.

— Você está atrasado — Siqueira disse, impaciente. — O tempo da rede é cronometrado por quem detém o lastro.

Lucas parou a dois metros de distância. O som da chuva abafava a música do velório. Ele tirou o contrato do bolso, mas não o assinou. Em vez disso, diante dos olhos arregalados de Siqueira, ele o rasgou em pedaços e deixou que o vento levasse os fragmentos para a sarjeta.

— A rede não é um balancete, Siqueira — Lucas declarou, a voz firme, cortando o ar úmido. — É um sistema de confiança. E você quebrou o fio. O chip que o Tiago me entregou não é apenas um registro de dívidas. É o mapa das suas extrações ilegais. Você não estava protegendo o legado, estava drenando o sangue da comunidade.

Siqueira deu um passo à frente, a máscara de diplomacia caindo por completo, revelando a fúria de quem perdeu o controle.

— Você não tem ideia do que fez. Se eu cair, a rede cai comigo. Você vai destruir as famílias que tentou salvar!

— Eu não vou destruir a rede — Lucas retrucou, sentindo pela primeira vez que o peso da herança era, na verdade, uma arma. — Eu vou expor o seu esquema para todos. A partir de agora, o anonimato acabou. A transparência que eu implementei vai mostrar exatamente para onde cada centavo foi desviado. E você será o primeiro a ser julgado pelo fio que você traiu.

Lucas virou as costas para o homem, caminhando de volta para a capela. Ele sabia que, ao fazer isso, estava selando seu destino no Brasil. A liberdade em Londres era um sonho de um homem que não existia mais. Agora, ele era o guardião. E a luta estava apenas começando.

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