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Chapter 2: Juros de Silêncio

Lucas confronta o advogado Siqueira e descobre que é avalista legal da rede de remessas. Ao buscar respostas com Dona Alzira, ele percebe que a traição é interna. Ele localiza o celular de Tiago, descobrindo que o chantagista conhece detalhes íntimos de sua vida em Londres, transformando sua distância geográfica em uma armadilha.

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Juros de Silêncio

O escritório do Dr. Siqueira cheirava a mofo e a uma burocracia estagnada que Lucas não reconhecia. O advogado, um homem de pele encardida pelo hábito de fumar em salas fechadas, tamborilava os dedos sobre uma pasta de couro gasta. Lucas sentia o ar pesado, uma umidade que colava sua camisa social — uma peça cara, de tecido técnico, que parecia um insulto naquele ambiente de carpete puído e estantes abarrotadas de processos de falência.

— Eu não assinei isso — repetiu Lucas, a voz cortante. Ele empurrou o documento de volta pelo tampo da mesa. A letra do seu nome estava ali, firme, desenhada com a precisão de quem conhecia cada curva da sua caligrafia.

Siqueira ajeitou os óculos, sem pressa. Havia uma ponta de comiseração em seu olhar que irritava mais do que qualquer ameaça direta.

— A firma foi reconhecida, Lucas. Em cartório. O tabelião é um homem antigo, conhecia seu pai desde que ele mal tinha onde cair morto. Ele não cometeria um erro desses por um cliente que já não está entre nós.

Lucas sentiu o estômago revirar. Sua mente correu para o ano anterior, para a breve visita que fizera para o aniversário de setenta anos do pai. Lembrava-se do jantar, do vinho barato, da insistência do velho para que ele assinasse alguns papéis de "seguro de vida" para garantir que, caso algo acontecesse, a casa no interior não fosse confiscada. Ele assinara sem ler, confiando no vínculo de sangue, sem saber que estava assinando a sentença de sua própria liberdade financeira.

— Isso é fraude — disparou Lucas, levantando-se. A cadeira arrastou-se pelo chão com um guincho estridente.

— É um contrato de avalista, Lucas — corrigiu Siqueira, impassível. — E a dívida não é apenas financeira. É uma rede. Se você tentar anular isso, não é apenas o seu nome que vai para o buraco. São as famílias que dependem do 'fio' para enviar o pouco que ganham lá fora para quem ficou aqui.

Lucas saiu de lá com o contrato no bolso, o papel parecendo pesar toneladas. Ele precisava de respostas, e o único caminho era o escritório de remessas no Brás, o coração da rede de seu pai.

O local, escondido atrás de pilhas de tecidos empoeirados, cheirava a desespero contido. Dona Alzira o esperava atrás de uma mesa de metal, sua postura rígida como se ela mesma fosse a espinha dorsal daquele sistema clandestino.

— Você não deveria estar aqui, Lucas — ela começou, a voz desprovida de afeto. — O funeral é amanhã. A dor é pública, mas a contabilidade é privada. E você está manuseando números que não compreende.

— Alguém drenou o fundo comunitário e usou meu nome para cobrir o rombo — Lucas rebateu, jogando o contrato sobre a mesa. — Onde está o Tiago? Ele era o courier. Ele sabia quem tinha a chave digital.

Alzira soltou uma risada seca. Ela deslizou um envelope sobre a mesa, contendo registros de movimentações bancárias que pareciam um mapa de uma ruína anunciada.

— O Tiago não é o culpado, Lucas. Ele é apenas a última peça que tentou manter o fio esticado. A traição veio de dentro. Alguém da família facilitou o acesso.

O choque de Alzira foi o combustível para a invasão que Lucas cometeu minutos depois no cubículo de Tiago nos fundos do escritório. O quarto era claustrofóbico, atulhado com caixas de remessas que nunca chegaram ao destino. Sob um estrado frouxo, ele encontrou um celular burner de tela trincada. Ao ligá-lo, a luz azulada revelou registros de remessas que divergiam do livro-razão oficial. O fundo comunitário estava sendo drenado por uma conta fantasma que levava a um endereço em Londres — o mesmo lugar que Lucas considerava seu refúgio, não um braço da dívida familiar.

O traidor não era um estranho; era alguém que conhecia seus padrões de vida no exterior com uma precisão cirúrgica. Ao deslizar o dedo pela interface, encontrou um chip de memória escondido na tampa da bateria. Foi quando o som de passos apressados ecoou no corredor. Lucas enfiou o chip no bolso e fugiu, o coração batendo contra as costelas como um prisioneiro.

Escondido em um café na zona portuária, Lucas acessou as mensagens de voz do aparelho. A voz de Tiago, trêmula e cortada por estática, preencheu o ambiente:

— Eles sabem da sua conta em Londres, Lucas. Sabem daquele apartamento que você comprou sem contar nem para o seu pai. Não confie no Siqueira. Ele não é advogado; ele é o contador da sangria.

A menção ao seu apartamento em Londres atingiu-o com a força de um soco. A distância geográfica, que ele sempre usou como um escudo de proteção, revelou-se uma ilusão perigosa. O mundo que ele tentara abandonar não era um fantasma; era um predador que o observava através do oceano. Ele abriu o segundo arquivo, mas o silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo chiado da conexão, seguido pela desconexão total. Tiago não estava apenas desaparecido; ele estava sendo caçado, e Lucas era o próximo na lista de endereçamento da dívida.

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