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Chapter 2: A Moeda da Lealdade

Leo confronta a realidade da rede de proteção ao ser pressionado por um vizinho desesperado. Ao cruzar os dados do livro-razão com os projetos de sua própria firma de arquitetura, ele descobre que é, involuntariamente, o facilitador da gentrificação que está destruindo o bairro. Mei Lin revela que sua responsabilidade não é apenas financeira, mas uma 'dívida de sangue' herdada.

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A Moeda da Lealdade

O ar dentro da loja de chá de Sr. Chen era uma mistura estagnada de jasmim seco e o cheiro metálico de um cofre aberto. Leo Wei, com seus sapatos de couro italiano que pareciam um insulto àquele assoalho rangente, tentava ignorar o peso da mochila onde o livro-razão estava escondido. Era uma densidade física, um objeto que parecia ancorá-lo ao chão, impedindo qualquer fuga para o escritório de arquitetura onde a vida era feita de vidro, concreto e contratos sem rosto.

O sino da porta tilintou, um som estridente que cortou o silêncio como uma lâmina. Sr. Han estava no umbral, o rosto cinzento, as mãos trêmulas segurando um envelope amassado.

— Onde está o Chen? — A voz de Han era um fio de navalha. — O pagamento da remessa venceu na terça. Minha neta... a escola não aceita mais o voucher. O banco disse que a conta de compensação do bairro está vazia.

Leo sentiu um frio na espinha. Ele deu um passo atrás, bloqueando instintivamente a visão do balcão. — Sr. Han, eu não sou o meu pai. Não tenho acesso aos fundos, não sei como esse sistema funciona. Por favor, procure a Mei Lin.

— A Mei Lin diz que o livro-razão é a única prova — Han avançou, a voz subindo de tom, atraindo olhares de quem passava pela calçada. — Se ele não for validado, seremos todos despejados. Você tem a chave, Leo. Você é o filho. Se você não assinar, a rede morre.

Leo fechou a porta, o som do trinco ecoando como um veredito. Ele caminhou até os fundos, onde Mei Lin o esperava entre caixas de mercadorias. Ela não parecia surpresa; parecia exausta, como se estivesse carregando o peso de todo o quarteirão em seus ombros.

— Você viu o desespero dele? — Mei Lin perguntou, sem olhar para Leo. Ela apontou para o livro sobre a mesa. — Abra-o, Leo. Veja o que o seu pai realmente construiu.

Leo abriu o volume. A luz da luminária de papel tremeluzia sobre as páginas, revelando nomes que ele reconhecia de contratos que ele mesmo havia assinado em seu escritório. O estômago de Leo revirou. Ele tentou colocar o livro sobre a mesa, mas suas mãos traíram sua vontade.

— Eu não sabia de nada disso, Mei. Eu só estava fazendo meu trabalho. Projetando renovação, eficiência... eu não sabia que a construtora estava ligada a essa rede.

— Ignorância é um privilégio de quem nunca precisou de uma mão estendida no escuro — ela retrucou, aproximando-se. — Seu pai não drenou o fundo. Ele foi sabotado. E o pior: ele foi sabotado por alguém que come à mesa dele, alguém que você chama de parceiro de negócios.

Leo saiu da loja, sentindo o ar frio da rua como um choque. Ele precisava de clareza. Refugiou-se em um café moderno no centro financeiro, um cubo de vidro e concreto que parecia um mundo distante da loja de chá. Com a caneta de metal de sua firma, ele começou a cruzar os dados do livro-razão com o mapa de demolição que ele mesmo ajudara a preparar. O endereço do açougue de Han, um pilar da rede, estava marcado em vermelho no plano de demolição da firma para o próximo trimestre. O padrão era sistemático. Onde o pai falhara em coletar a dívida, a firma de Leo entrava com a escavadeira.

Ele voltou para a loja de chá à noite, o livro-razão parecendo pesar toneladas. Jogou o caderno sobre o balcão. O som seco do impacto ecoou como um disparo.

— Eu vi as assinaturas, Mei — disse Leo, a voz rouca. — A construtora que me contratou... eles estão usando os fundos que deveriam proteger este bairro para comprar as dívidas que o meu pai deixou. Eu sou a assinatura que autoriza a demolição da minha própria história. É isso? Por que ele simplesmente desapareceu e me deixou com esse labirinto de traições?

Mei Lin suspirou, contornando o balcão. Ela parou diante dele, os olhos fixos nos dele, carregados de uma gravidade que ele não podia mais ignorar.

— Você sempre olhou para este bairro como um problema de zoneamento, Leo. Mas a dívida que você herdou não é financeira. Não se trata de dinheiro, mas de sangue. Quando você nasceu, seu pai fez um juramento perante a rede. Ele prometeu que a linhagem Wei seria o escudo deste povo. Esse juramento não se encerra com o desaparecimento dele. Ele se transfere para você. Você não é apenas um arquiteto, Leo. Você é o sucessor forçado de uma rede que está sangrando, e a sua primeira tarefa é impedir que a sua própria mão assine a sentença de morte deste lugar.

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