Chapter 8
O ar no escritório de advocacia, antes um refúgio de ar-condicionado e silêncio, agora parecia rarefeito. Leo encarava o monitor, mas as cláusulas da fusão imobiliária que ele deveria revisar haviam se tornado borrões sem sentido. O livro-razão, escondido na pasta de couro sob sua mesa, pesava como um corpo estranho. Ele não era mais apenas um advogado; era o guardião de uma rede de sobrevivência que o vereador local pretendia desmantelar, peça por peça.
— Você está distraído, Leo. — A voz de Marcelo, seu supervisor, cortou o ar com a precisão de um bisturi. Ele não se aproximou por trás, como de costume; parou à frente da mesa, bloqueando a luz da janela. — O vereador me ligou. Ele mencionou que um dos nossos associados tem se interessado por arquivos de sucessão em Chinatown. Arquivos que, tecnicamente, não fazem parte da nossa jurisdição.
Leo sentiu o sangue drenar de seu rosto, mas manteve a postura. A mandíbula travada era a única coisa que o impedia de tremer. — É uma investigação privada, Marcelo. Questões de família.
— Família? — Marcelo soltou uma risada curta, desprovida de humor. Ele pousou uma pasta sobre a mesa de Leo. Dentro, não havia contratos, mas uma fotografia granulada: Leo, na noite anterior, saindo do salão comunitário, o rosto iluminado por um poste de luz. — O vereador não gosta de surpresas. E ele sabe que o seu tio deixou uma dívida que, por lei, agora é sua. Se você quer manter sua licença e sua carreira, sugiro que pare de brincar de detetive com o patrimônio alheio.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Marcelo não esperou resposta; ele sabia que a ameaça havia atingido o alvo. Leo era o ativo estratégico que o tio Chen criara, mas agora, esse mesmo ativo estava sendo usado como alavanca para destruir a rede.
Ao final do expediente, Leo não voltou para casa. Ele sabia que o apartamento estava comprometido. Em vez disso, dirigiu até o salão comunitário. A porta estava entreaberta, o cheiro de incenso e papel velho o recebeu como uma acusação. Mei estava sentada à mesa central, o livro-razão aberto à sua frente. Ela não pareceu surpresa ao vê-lo.
— Eles já sabem, Leo — ela disse, sem levantar os olhos. — O vereador não quer o dinheiro da dívida. Ele quer o terreno do bloco. E ele sabe que, enquanto você for o sucessor legal, você é o único que pode assinar a transferência de propriedade.
— Eu nunca vou assinar — Leo rebateu, a voz firme, embora o medo latejasse em suas têmporas.
— Não se trata de vontade. Trata-se de sobrevivência. Se você não assinar, eles vão destruir sua vida fora daqui. Se você assinar, eles destroem a nossa. — Mei finalmente o encarou, e pela primeira vez, Leo viu o peso do sacrifício que ela carregava. — O tio Chen sabia que você voltaria. Ele não te deu uma carreira; ele te deu uma arma. O livro-razão não é apenas uma dívida, é o registro de todos os subornos que o vereador recebeu nos últimos dez anos. É a nossa única defesa.
Leo sentiu o peso da responsabilidade. Ele não era mais o forasteiro que buscava distância; ele era o centro do tabuleiro. Ele se aproximou da mesa e tocou o papel amarelado. Ao abrir a pasta, percebeu que faltava uma página — a página que ligava o vereador diretamente à morte de seu tio.
Ele não precisava de mais avisos. Alguém dentro do salão estava informando o vereador. A rede não estava apenas sendo atacada de fora; ela estava sendo corroída por dentro. Leo olhou para Mei, buscando um traidor, mas encontrou apenas o reflexo de sua própria incerteza. O jogo havia mudado: ele não estava mais apenas protegendo o passado, estava lutando por sua própria sobrevivência no presente.