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Chapter 4: Chapter 4

Leo assume seu papel como fiador ao repelir um cobrador externo usando seu conhecimento jurídico, mas descobre uma anotação suspeita no livro-razão que sugere que a morte de seu tio não foi natural, mas um assassinato planejado para proteger a infiltração da rede.

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Chapter 4

O escritório nos fundos do salão comunitário cheirava a chá de crisântemo e mofo, um odor que parecia impregnar a própria pele de Leo. Mei não ofereceu cadeira. Ela apenas deslizou o livro-razão pelo tampo de madeira, parando-o sob a luminária de mesa. As páginas, preenchidas por uma caligrafia densa e precisa, não eram apenas contabilidade; eram o mapa de sobrevivência de dezenas de famílias que operavam nas sombras da cidade.

— Você se orgulha do seu diploma de Direito como se fosse um escudo — disse Mei, a voz cortante. — Mas estas linhas provam que você é um investimento. Cinco anos de taxas, acomodação e proteção que saíram do bolso do seu tio. Seu sucesso em São Paulo foi a peça final de um plano que ele cultivou enquanto você fingia que não tinha raízes.

Leo encarou o livro. Seu nome, escrito em caracteres que ele reconhecia com uma dor familiar, estava lá, datado de meia década atrás. A clareza do golpe foi física; ele sentiu o estômago revirar. Sua independência não passava de uma construção financiada por um sistema de dívidas que ele agora, por herança, encabeçava.

— Eu não pedi esse financiamento — ele murmurou, a voz falhando. — Eu posso devolver cada centavo.

— Dinheiro é a menor das suas dívidas, Leo. Você é o fiador agora. E o salão está sob mira.

Antes que ele pudesse responder, batidas secas na porta principal estilhaçaram o silêncio. Não era a cadência respeitosa dos anciãos, mas o som autoritário de quem se sente dono da calçada. Mei trocou um olhar rápido com ele. O aviso era claro: a linhagem estava sendo testada.

Um homem alto, vestindo um terno que parecia deslocado na penumbra, entrou sem pedir licença. Ele varreu o espaço com a frieza de um avaliador imobiliário, ignorando os altares. Ele começou a falar em um mandarim arrastado, carregado de gírias de rua e termos administrativos que os anciãos, com seus ouvidos envelhecidos, mal conseguiam processar. Ameaçava despejo e multas com uma rapidez que visava confundir.

Mei deu um passo à frente, as mãos escondidas nas mangas largas, mas sua hesitação era visível. Ela conhecia a tradição, mas não a linguagem jurídica do sistema predatório. Leo percebeu o momento exato em que o medo começou a paralisar os anciãos. Sem pensar, ele se colocou entre o cobrador e a mesa dos registros.

— Você está citando a lei de zoneamento de 2018, mas esqueceu que este salão possui um tombamento histórico especial devido à sua função de assistência imigratória — Leo disparou, a voz firme, usando o vocabulário técnico que aprendera nos tribunais de São Paulo. Ele misturou o português jurídico com o mandarim que o cobrador usara, desconstruindo a ameaça com uma precisão que fez o homem hesitar. O cobrador franziu a testa, surpreso ao encontrar um interlocutor que falava a língua da lei com a mesma autoridade que ele. — Se você tentar qualquer confiscação sem uma ordem judicial específica, eu mesmo farei questão de notificar o Ministério Público sobre suas táticas de extorsão.

O cobrador recuou um passo, a arrogância vacilando sob a pressão da exposição técnica. Ele lançou um olhar ameaçador, mas concordou em sair, prometendo que voltaria com os documentos certos. Quando a porta se fechou, o silêncio no salão era de choque. Leo tinha acabado de se expor como o novo guardião.

Sozinho novamente no escritório, Leo voltou ao livro-razão. Seus dedos pararam em uma anotação feita a lápis, quase invisível, na margem de um registro datado de cinco anos atrás. A caligrafia não era a de seu tio Chen; era mais firme, agressiva, como se tentasse obliterar o nome que estava logo abaixo: o dele. Ao comparar o traço com os documentos de inventário que ele mesmo havia organizado, a náusea subiu-lhe pela garganta. Aquela letra pertencia ao advogado que, na semana passada, aparecera com a notificação de despejo.

— Quem escreveu isso? — Leo apontou para a marca, a voz trêmula. — Isso não é do meu tio. Alguém tentou apagar o meu nome aqui, Mei. Por que alguém teria acesso a isso antes mesmo da morte dele?

Mei caminhou até a mesa, a silhueta rígida contra a luz fraca. Ela não se esquivou.

— Chen sabia que o sistema estava sendo infiltrado de dentro para fora, Leo. Ele não morreu de causas naturais. Ele foi silenciado exatamente porque alguém sabia que o nome de um forasteiro como você era a única coisa que poderia desmantelar a rede inteira. E agora, você é o próximo da lista.

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