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Chapter 8: O Ritual de Cura

Beatriz organiza um evento comunitário bem-sucedido que valida o pátio como refúgio e derrota a tentativa de interdição do Dr. Valente. No entanto, o estoque de ervas se esgota e ela descobre, escondida no diário, a prova de que a dívida da casa foi uma fraude arquitetada pela construtora.

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O Ritual de Cura

O cheiro de terra úmida e madeira saturada ainda pairava no pátio, mas, para Beatriz, não era mais o odor da ruína. Era o perfume da sobrevivência. Ela passou um pano seco sobre a bancada de mogno, sentindo a vibração das mãos. A tempestade de ontem havia testado cada viga, e o pátio, embora ferido, permanecia de pé. Ao abrir o pote de cerâmica que deveria conter a mistura de erva-cidreira e limão-cravo, sua competência foi confrontada pela realidade: restava apenas uma fração do necessário para o evento comunitário de logo mais.

Lucas surgiu sob o arco de entrada, as botas sujas de lama e o olhar fixo nos danos estruturais da ala leste. Ele não precisou perguntar; a expressão de Beatriz ao encarar o pote vazio disse tudo.

— O estoque não vai aguentar a demanda se os vizinhos aparecerem em peso — disse ele, aproximando-se com um mapa de drenagem nas mãos. — E, pelo que ouvi na rua, o Dr. Valente não está parado. Ele está espalhando que a umidade da chuva tornou o pátio um foco de insalubridade. Quer a prefeitura aqui com um decreto de interdição sanitária antes do entardecer.

Beatriz sentiu o estômago apertar. A vitória jurídica sobre o leilão era um escudo contra a construtora, mas contra a malícia de Valente, ela precisava de algo tangível. O pátio não podia parecer um local decadente; ele precisava ser um refúgio funcional.

— Então vamos mostrar a eles que o pátio está mais vivo do que nunca — respondeu ela, guardando o pote vazio. — Não é uma festa, Lucas. É uma restauração.

Mais tarde, sob a luz pálida da manhã, Beatriz e Seu Arnaldo percorreram as ruas do bairro. A resistência era palpável, um silêncio hostil que emanava das janelas fechadas. Quando pararam diante do portão da Sra. Helena, a voz mais influente do quarteirão, Arnaldo hesitou.

— Ela não vai abrir, Beatriz. O Valente convenceu a todos de que sua reforma é um disfarce para uma casa de eventos barulhenta.

Beatriz não respondeu com argumentos. Ela retirou uma pequena garrafa térmica da bolsa, contendo a decocção de erva-cidreira e flores de laranjeira.

— Sra. Helena? — chamou Beatriz, a voz firme. — Não vim pedir autorização. Vim oferecer o que a casa sempre ofereceu.

Ela serviu um pouco do chá em um copo de vidro. O aroma cítrico e doce dissipou-se no ar frio, rompendo a barreira do portão. A Sra. Helena, atraída pelo perfume familiar, abriu a fresta. O convite estava feito, e a aceitação dela, silenciosa e definitiva, foi a faísca que atraiu os outros.

Ao anoitecer, o pátio estava lotado. O murmúrio dos vizinhos, antes céticos, transformara-se em um zumbido de curiosidade e conforto. Beatriz trabalhava com uma precisão febril, consultando o diário de infusões sob a luz de lamparinas. Ela servia as xícaras com a dedicação de quem reparava a própria alma, cada gesto um elo com a história da casa. Lucas circulava pelo pátio, monitorando a estrutura, até que o Dr. Valente surgiu na entrada, acompanhado por um fiscal da prefeitura.

— Interdição sanitária por insalubridade — anunciou Valente, com um sorriso de escárnio.

O silêncio caiu sobre o pátio. Beatriz, porém, não recuou. Ela caminhou até a mesa central, pegou o documento de tombamento histórico e o estendeu perante o fiscal.

— O senhor pode conferir o registro, mas este pátio é patrimônio tombado. Qualquer tentativa de interdição sem vistoria técnica prévia do IPHAN configurará abuso de autoridade.

O fiscal, visivelmente desconcertado pela precisão jurídica, recuou. Valente, derrotado pela própria arrogância, retirou-se sob os olhares reprovadores dos vizinhos.

O sucesso foi absoluto, mas o custo tornou-se evidente quando Beatriz serviu a última rodada. O pote de cerâmica estava vazio. O estoque de ervas, o alicerce daquela nova rotina de cura, chegara ao fim. Enquanto os últimos vizinhos se retiravam, Beatriz sentou-se à mesa de madeira. Ao afastar os resquícios das folhas, seus dedos tocaram uma borda irregular no forro do diário. O papel estava colado com uma cera antiga, escondendo uma página que ela nunca notara. Com mãos trêmulas, ela a destacou. Lucas inclinou-se sobre seu ombro. A letra miúda e apressada revelava a verdade sobre a dívida que quase custara a casa: ela não era apenas financeira, era uma armadilha forjada pela Vanguarda Imobiliária há décadas. Beatriz sentiu o peso da prova em suas mãos; ela agora tinha a arma para destruir a credibilidade da construtora, mas o preço seria um confronto jurídico sem retorno.

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