A Vulnerabilidade de Lúcia
O aroma de café expresso forte no "Capital Lounge" era um contraste gritante com o perfume de jasmim da casa de chá de Beatriz. Lúcia, a mulher que encabeçava o plano de demolição do pátio, estava sentada a uma mesa de canto, cercada por telas e papéis que pareciam pesar mais do que ela mesma. Não havia a pose de predadora imobiliária que Beatriz tanto detestava; havia apenas ombros caídos e um olhar perdido na vidraça. Beatriz apertou a alça da bolsa, o impulso de confrontá-la queimando em sua garganta. Ela precisava entender por que tanto ódio por um pedaço de terra.
Enquanto observava, Lúcia moveu o braço bruscamente e uma fotografia antiga deslizou de sua pasta, caindo no chão. O papel era amarelado, revelando o contorno inconfundível da fachada da casa de chá. O choque paralisou Beatriz. Sem pensar na discrição, ela avançou entre as mesas, o coração martelando contra as costelas. Lúcia sobressaltou-se ao vê-la, recolhendo a foto com uma agilidade defensiva que denunciava um pânico profundo. Beatriz não recuou; ela puxou a cadeira à frente da executiva, deixando sobre a mesa de fórmica um termo de infusão de ervas que ainda soltava um vapor suave.
— Você não deveria estar aqui — disse Lúcia, a voz antes afiada como uma lâmina, falhando na última sílaba.
— O chá é de cidreira e camomila. Ajuda com a pressão alta e com as noites mal dormidas — Beatriz respondeu, servindo a bebida com movimentos deliberados, um ritual de competência que forçava um ritmo diferente naquele ambiente corporativo. — Eu vi o seu nome no relatório de despejo de 1998, Lúcia. O mesmo bairro. A mesma rua onde meu tio morreu.
Lúcia congelou. A fachada impecável rachou. Ela encarou a xícara fumegante, mas não a tocou. O silêncio entre elas tornou-se um campo de sobrevivência compartilhada.
— Eles não te contaram, não é? — Beatriz continuou, a voz baixa. — Que a imobiliária para a qual você trabalha hoje é a mesma que destruiu a casa da sua família vinte anos atrás?
Lúcia fechou os olhos, a respiração irregular. — Minha família morava na Rua dos Cedros. Eles não esperaram o prazo legal. Derrubaram o muro enquanto meu pai tentava negociar. Eu vi tudo, Beatriz. A poeira subindo, o som das telhas quebrando. Eu não queria ser a pessoa que faz isso com os outros, mas o contrato que assinei... eles me deram uma saída para o meu próprio desespero. Eles me forçaram a levar o seu livro de receitas, Beatriz. Não foi minha iniciativa. Eu sou apenas uma peça descartável para eles.
Beatriz sentiu o peso das palavras como um golpe seco. Lúcia não era a vilã, era uma vítima que se tornara algoz. Ao retornar para casa, o pátio parecia menor, mais frágil, com apenas vinte e nove dias restando até a demolição. Ela abriu a caixa metálica que encontrara sob o piso semanas antes. Dentro, os registros financeiros de seu tio não eram apenas números; eram um mapa de extorsão. Ela folheou as páginas, seus dedos tremendo ao notar as entradas de 1998. Ali estava a evidência: uma série de pagamentos mensais para uma consultoria imobiliária fantasma, cessando abruptamente três dias antes do óbito de seu tio. O último registro, escrito com a letra trêmula de quem já não tinha forças, dizia apenas: “A última xícara serviu para o silêncio. Eles não querem o terreno, querem apagar o rastro do crime.” Beatriz compreendeu então que a morte de seu tio não fora um acidente, mas um homicídio planejado para encobrir uma fraude imobiliária que se estendia por décadas.