Novel

Chapter 2: A Notificação de Despejo

Lúcia entrega o ultimato de 30 dias para a demolição. Beatriz, incentivada por Seu Arnaldo, descobre uma caixa escondida no telhado contendo registros cruciais. Um cliente misterioso valida a importância cultural do local, reforçando a decisão de Beatriz de lutar pelo pátio.

Release unitFull access availablePortuguese / Português
Full chapter open Full chapter access is active.

A Notificação de Despejo

O som dos saltos de Lúcia contra o piso de pedra do pátio era um metrônomo cruel, marcando o tempo que Beatriz não tinha. Ela estava parada junto à mesa central, com as mãos ainda marcadas pela fuligem de um bule que tentara polir minutos antes. Lúcia não olhou para o ambiente, nem para o bule de cerâmica que Beatriz mantinha como um talismã. Seus olhos estavam fixos na pasta de couro que carregava como uma arma.

— O prazo de tolerância expirou, Beatriz — disse Lúcia, a voz desprovida de qualquer calor. Ela depositou o documento sobre o vidro da mesa, bem em cima da nota manuscrita deixada pelo tio, aquela que Beatriz ainda não conseguia decifrar. — A prefeitura não espera por luto. Sem o alvará de funcionamento atualizado, este pátio é apenas um risco estrutural.

Beatriz sentiu o estômago revirar. — Eu só preciso de mais tempo. O inventário está uma bagunça, e há registros que ainda não encontrei.

Lúcia soltou um suspiro profissional, quase uma risada. Ela abriu a pasta e revelou um mapa técnico. Uma linha vermelha cortava o coração da construção. — Tempo é um luxo que a incorporadora não pode conceder. A demolição não é uma ameaça, é um projeto aprovado. O terreno vale demais para ficar parado esperando por livros de registros perdidos. Trinta dias, Beatriz. Se não houver alvará, as máquinas entram.

Quando Lúcia partiu, o silêncio que ficou não era de paz, mas de vácuo. Beatriz soltou o papel, sentindo-o pesado como chumbo. Seu Arnaldo, que limpava metodicamente um conjunto de xícaras, parou. Seus dedos calejados tremiam levemente.

— Eles não querem apenas o terreno — disse ele, a voz rouca. — Eles querem apagar a história que não conseguem comprar. Mas este lugar tem uma proteção cultural antiga. Se provarmos que a casa de chá é um ponto de memória, eles não podem derrubar uma telha. Mas, para isso, precisamos daquele livro de registros que seu tio escondia.

Beatriz riu, um som amargo. — Com que alvará? Está tudo vencido. Eu só queria vender, quitar o que devo e voltar para o caos da cidade.

— Você não quer ir embora — Arnaldo rebateu, entregando-lhe uma chave de ferro enferrujada. — A despensa guarda o que ele não queria que vissem. O livro está lá, atrás da última xícara.

Beatriz subiu para o telhado, tentando estancar uma goteira que teimava em molhar o canto de leitura. O ato físico de calafetar a telha, com as mãos sujas de massa e poeira, tornou-se sua primeira resistência real. Enquanto forçava a madeira podre, seus dedos tocaram algo oculto sob o vigamento: uma pequena caixa metálica. Dentro, não havia apenas registros, mas a prova de que seu tio não apenas geria o lugar; ele era o guardião de algo que a imobiliária tentava desesperadamente silenciar.

Ao descer, ela encontrou um homem de sobretudo parado no salão. Ele não olhava para as rachaduras, mas para as prateleiras. — Ainda servem o chá de jasmim com mel silvestre? — perguntou ele.

Beatriz, movida por uma intuição que não sabia possuir, preparou o chá. O ritual a acalmou. O homem bebeu, suspirou e deixou sobre o balcão uma nota alta e um bilhete: "O legado vive enquanto o sabor persistir. Não deixe que apaguem o que é eterno."

Beatriz olhou para o pátio. O prazo de trinta dias ainda estava lá, uma sombra sobre as paredes, mas, pela primeira vez, o lugar não parecia apenas uma dívida. Parecia um desafio. Ela tinha o livro, a chave e um cliente que sabia o valor daquele refúgio. A batalha pela sobrevivência do pátio tinha acabado de começar.

Member Access

Unlock the full catalog

Free preview gets people in. Membership keeps the story moving.

  • Monthly and yearly membership
  • Comic pages, novels, and screen catalog
  • Resume progress and keep favorites synced